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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Estudante disfuncional, ou genial?


Imagine que tem uma classe com 9 alunos: Elis, Pablo, Ronaldo, Getúlio, Chico, Charles, Jean, Sheldon e J.K.

- Elis está cantando baixinho uma música incompreensível.
- Pablo, ao descuido do professor, está pintando a parede do fundo da sala.
- Ronaldo não para quieto, pois no próximo período tem aula de Educação Física.
- Getúlio está preocupado em montar sua chapa para o grêmio estudantil e não prestou atenção em nenhuma palavra do professor.
- Chico, apesar de muito introspectivo, está sempre conversando baixinho, preocupado com os problemas dos colegas.
- Charles, diariamente, traz um inseto novo para impressionar os rapazes e assustar as meninas.
- Jean está rabiscando coisas absurdas à margem do caderno.
- Sheldon parece distante, enquanto resolve problemas de física na aula que é de geografia.
- J.K. está escrevendo sem parar em pedaços de papel amassado.

Em uma palavra, como definiria essa turma? Que postura você acha que o professor deveria tomar? E se seu filho fosse um deles, que posição tomaria a respeito?

Agora pense de novo:
E se Elis fosse Elis Regina, Pablo fosse Picasso, Ronaldo fosse gaúcho, Getúlio fosse Vargas, Chico fosse Xavier, Charles fosse Darwin, Jean fosse Paul Sartre, Sheldon fosse Cooper e J.K fosse Rowling?

Você estaria frente a uma turma "normal", "adversa", "indisciplinada"? Ou seriam alunos desenvolvendo diferentes tipos de inteligências e, talvez, um dia fossem reconhecidos mundialmente por suas habilidades, cada um em sua área? (Situação copiada do facebook do blog Lendo.org)

Muitas vezes as crianças chegam em nossas clínicas trazidas pelos pais com queixas de serem distraídos, desinteressados,dispersos, ou “hiperativos”. Quando na verdade só são “desconhecidos” para os pais.
Já falei isso em diversas postagens: Conheça seu filho! Saiba do que ele gosta, que habilidades tem, quem são os amigos, que fazem quando estão juntos.

Não quero dizer com isso que a educação formal deva ficar de lado. Não é isso! Não é por que seu filho tem potencial para ser um grande jogador de futebol, que vai tirá-lo da escola para que ele treine mais horas por dia. É uma questão de oportunizar, de organizar o tempo.

Explicando melhor. Lembre-se dos dissabores que tem na sua vida profissional, todas as profissões e posições hierárquicas enfrentam desafios e situações complicadas. Mas quando acontecem situações assim, você tem como lembrar do que te mantém neste trabalho, que recompensa você ganha por fazê-lo bem feito, seja o reconhecimento, seja o sorriso do cliente satisfeito, ou só mesmo o salário no fim do mês. Agora imagine passar por tudo sem vislumbrar nenhuma recompensa, só por que alguém lhe disse que era sua obrigação e que é bom para o seu futuro. Futuro esse que parece longínquo, incerto e chato.
 
Ninguém pensa, sente, ou sonha exatamente da mesma forma que outra pessoa. É preciso respeitar a individualidade de cada ser humano.

Claro que nem todas as crianças e adolescentes se dão mal na escola, estas realmente gostam da atividade de estudar, ou são boas seguidoras de regras, ou vivem sob a pressão de ameaça de punição. Já atendi uma criança (não vou especificar se era menino, ou menina para preservar a questão do sigilo), mas para ela (a criança) tirar um 10,00 tinha como conseqüência pura e simplesmente a sensação de alívio. Agora pense, se um 10,00 é só alívio do tipo: “Ufa! Consegui...” o que será necessário para que sinta real alegria? Quando vai poder se orgulhar?

Voltando à nossa classe de talentos. Se você reconheceu que seu filho tem interesses além do conteúdo formal da escola, oportunize situações e momentos em que possa extravasar, praticar, vivenciar o que realmente gosta de fazer. Isso facilitará muito no hábito da disciplina, a ter paciência de esperar a hora certa de fazer o que se quer fazer, de saber que cumprida a obrigação se tem a certeza da diversão.

Repito: conheça seu filho. A escola pode até ajudar a identificar possíveis talentos suprimidos, mas isso depende muito da qualidade da escola, da sua proposta pedagógica, da quantidade de alunos. Porém para a escola, por mais atenciosa que seja a equipe multidisciplinar de professoras, pedagogas, psicólogas, não é possível ter o olhar individualizado que só os pais podem ter. Mesmo que a criança passe o dia na escola, cada professora só passa 1 ano com uma turma de alunos, por mais atenciosa que seja ela não foi testemunha de desenvolvimento da criança até o momento em que se encontra. E mesmo que fosse possível, não é papel dela.

Todas nós queremos o melhor para os nossos filhos. Fazemos o que achamos que é melhor para o futuro deles. Mas atenção: pense em ajudar a seu filho a ser mais feliz HOJE.

... e seja você também mais feliz hoje. Do amanhã, ninguém sabe...

De uma mãe/psicóloga feliz!!!!

Cristine Cabral

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

"Mãe NÃO é tudo igual."

Na área da psicologia organizacional usa-se a teoria motivacional Âncoras de Carreira, do autor Edgar Schein (mestre em Psicologia pela Universidade de Stanford e  PhD em Psicologia Social por Harvard.)
“A âncora de carreira é uma combinação das áreas percebidas de competência, motivos e valores que a pessoa não abandonaria, representa o seu verdadeiro “eu”.  Sem o conhecimento desta âncora a pessoa pode buscar outro trabalho que no futuro não serão satisfatórios porque ela sente que “o trabalho não responde realmente a seu eu” (“não tem nada a ver comigo”).  Analisar o momento presente da carreira e as decisões futuras poderão ser mais fáceis e ter mais valor se a pessoa tem um claro entendimento de sua orientação pessoal para o trabalho, seus motivos, seus valores e sua auto-percepção de talentos.” (fonte: psico.ufsc.br)

Num resumo bem superficial podemos descrever assim as 8 âncoras descritas pelo autor citado:

COMPETÊNCIA TÉCNICA E FUNCIONAL

Pessoas que se sentem muito motivadas no exercício de seus talentos e na satisfação de saberem que são “experts”. O tipo de trabalho deve estar relacionado com testar suas habilidades e competências, se isto não ocorre o trabalho logo se torna desinteressante. Sua auto-estima está ligada ao exercício de seus talentos por isto necessita tarefas onde possa exercê-lo. Este tipo de pessoa está mais ligado ao conteúdo de seu trabalho.

COMPETÊNCIA ADMINISTRATIVA GERAL

As pessoas desta âncora reconhecem que devem ter conhecimentos em muitas áreas diferentes. É comum serem chamados de “tomadores de decisão”, entretanto isto quer dizer que eles seriam capazes de identificar e colocar os problemas para que as decisões possam ser tomadas. Têm também habilidades para influenciar, supervisionar, dirigir, ajudar e controlar as pessoas em todos os níveis da organização a fim de atingir os objetivos da empresa. O tipo de trabalho que mais lhe motiva está ligado a altos graus de responsabilidade, desafio, trabalho variado e integrativo, liderança de oportunidades para contribuir para o sucesso de sua organização.

AUTONOMIA E INDEPENDÊNCIA

Pessoas que percebem que não podem se sentir dependentes de outra pessoa em relação a regras, procedimentos, horário de trabalho, códigos de vestimenta, e outras normas que estão invariavelmente presentes na maioria das organizações. Eles acham a vida na organização muito restritiva, irracional e intrusiva em sua vida privada, por isto preferem seguir a sua carreira mais independente. Geralmente escolhem profissões autônomas. O tipo de trabalho está ligado ao contrato por projetos definidos, sendo em tempo parcial, total, ou temporário. Este tipo de pessoa gosta de trabalhar com objetivos definidos, e depois de clarificados, quer ser deixada livre para trabalhar.

SEGURANÇA E ESTABILIDADE

Pessoas que organizam suas carreiras para se sentirem estáveis e seguras, permitindo assim que os futuros eventos sejam previsíveis e possam assim relaxar e prever o seu sucesso. Geralmente estão ligados a empregos do governo ou exército, pois estes garantem estabilidade. Os mais talentosos deste grupo atingem níveis maiores na hierarquia da organização. Os que têm talentos inusuais, se satisfazem de encontrar um hobby onde possam realizá-los. Preferem um tipo de trabalho mais ligado ao contexto do que a natureza do trabalho propriamente dita. Preferem ser reconhecidos por sua fidelidade, desempenho correto que vão lhe assegurar mais estabilidade futura.

CRIATIVIDADE EMPRESARIAL

Pessoas que se sentem motivadas para criar negócios próprios através do desenvolvimento de novos produtos e serviços, ou pela construção de novas organizações financeiras ou ainda recriando negócios já existentes e adaptando-os às suas especificidades. “Fazer dinheiro” é a sua medida de sucesso. O tipo de trabalho está ligado às necessidades de criar, em suas próprias empresas, eles continuam a criar novos produtos e serviços ou eles perderão o interesse, vendendo suas empresas e começando outra nova. O reconhecimento que esperam é estabelecerem uma grande fortuna e uma empresa considerável.

DEDICAÇÃO A UMA CAUSA

Pessoas que procuram ocupações a fim de incorporarem no trabalho valores importantes para si, mais do que seus talentos ou área de competência. Suas decisões de carreira são feitas baseadas no desejo de fazer alguma coisa para melhorar o mundo de alguma maneira. As profissões de ajuda como medicina, enfermagem, serviço social, educação são tipicamente carreiras desta âncora onde predominam valores como: trabalhar com as pessoas, servir a humanidade, ajudar a nação. O dinheiro não é importante e o que buscam como recompensa é atingir posições com maior influencia para poder operar com mais autonomia na realização de sua causa.

DESAFIO PURO

As pessoas que pensam poder conquistar qualquer um ou qualquer coisa. Eles definem sucesso como vencer obstáculos impossíveis, resolver problemas insolúveis, vencer os oponentes mais ferrenhos. Na medida em que progridem eles procuram desafios cada vez mais difíceis. Para alguns aparece sob a forma de procurar trabalhos nos quais ele é colocado frente a problemas cada vez mais difíceis. Para outros o desafio é colocado em termos de competitividade interpessoal. Geralmente procuram trabalhos nos quais podem se sentir sempre testados, na ausência deste teste constante, sente-se aborrecidos e desmotivados.

ESTILO DE VIDA

Pessoas que consideram a carreira menos importante e que esta deve estar integrada num estilo de vida.É principalmente voltada a encontrar uma maneira de integrar as necessidades individuais, familiares e da carreira, para isto a pessoa quer flexibilidade mais do que qualquer outra coisa. A pessoa olha mais para a atitude da empresa do que para o seu programa de trabalho propriamente dito, uma atitude que reflete respeito pela vida pessoal e familiar e que permite uma negociação genuína do contrato psicológico possível.

Percebam que as diferenças são bem significativas, então como pensar que mulheres que têm âncoras de carreira tão diferentes vão ser mães da mesma forma?

Uma mulher que tenha a âncora Puro Desafio certamente se sentirá realizada em poder dar conta pessoalmente do trabalho, da casa, do marido e ainda ficar linda. Já um que tenha a Competência Administrativa Geral saberá coordenar bem babás, domésticas, marido, avós, distribuindo atividades de forma a equilibrar todas as tarefas domésticas e profissionais de forma satisfatória. Já uma mulher que tenha a âncora Estilo de Vida não se importará de deixar a carreira de lado por alguns anos para cuidar dos filhos.

O que pretendo com este texto mostrar que embora escutem milhões de palpites e conselhos sobre como educar seus filhos, sobre como ser uma mãe melhor, etc, estes não valem com o mesmo peso e a mesma medida para todas. Cada pessoa tem o seu jeito, cada família tem a sua dinâmica.

Ressaltando que essas âncoras não são fixas, podem mudar ao longo da vida dependendo das experiências vividas. Nada impede de uma mulher que sempre teve como âncora a Criatividade Empresarial, passe a ter a Autonomia e Independência como objetivo, ou ainda Dedicação a uma Causa.

Todas temos alguma coisa de todas as âncoras, mas existe em cada uma de nós uma hierarquia daquilo que consideramos mais importante. Quem quiser responder o inventário e descobrir a ordem de suas âncoras pode ir aqui: 
http://www.psico.ufsc.br/sop2/ancora/pages/inventario.php

O resultado sai assim:

Assim sendo não sintam culpa por serem mães como são, mas também respeitem as mães que fazem escolhas diferentes das suas. Ter dúvida é natural, procurar conselhos e orientações é normal e saudável, mas na hora de decidir o que fazer cada uma escolhe conforme o seu modo de vida, as suas ambições, seu modo de ver o mundo.


Cristine Cabral