Caras leitoras (e eventuais leitores),
Iniciei um novo projeto e estou me aventurando pelos ares do YouTube. Ainda é tudo muito novo e estou apenas engatinhando nesta nova seara digital, mas, como tudo na vida, é praticando que a gente aprende.
Agradeço a visita dos que forem lá dar uma olhadinha.
Beijos, Cristine Cabral
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terça-feira, 25 de outubro de 2016
sábado, 11 de junho de 2016
"Mãe, tem um menino apaixonado por mim."
E eis que aos 6 anos de idade a rotina da minha filha passa a ser alterada pela "paixão" de um menino.
Não estou preocupada, nem com ciúmes, mas como não deixo nada passar sem antes analisar sob alguns aspectos, vamos lá:
- Mãe, o menino do 1o. ano F passa o recreio me seguindo, o tempo todo me olhando e eu não gosto disso.
Como não há qualquer invasão do espaço dela, não vou tomar qualquer atitude, as vivências são mais pedagógicas do que qualquer lição. E não há qualquer necessidade (até o momento) de "salvar" minha filha.
A primeira coisa que me veio a cabeça foi que algum adulto deve ter dito "Se você gosta dela, vai atrás." Se não disseram diretamente para ele, é muito provável que tenha ouvido essa frase na fala dos adultos, se referindo como a forma como os homens devem se comportar quando gostam de alguma mulher. Porém o pensamento de crianças nessa fase é puramente concreto, logo, "ir atrás" foi entendido de forma literal e assim ele passou a segui-la durante o recreio.
O que respondi ao comentário dela foi:
- O que você pode fazer é ir falar com ele e pedir por favor que pare de lhe seguir porque você não gosta.
O que ela fez no outro dia, mas que semanas depois ela veio me dizer que não adiantou nada, que onde ela está ele fica por perto, sempre olhando para ela.
Em tempos de debates sobre "Cultura do Estupro" (não entrarei nesse mérito aqui) fico pensando sobre as diferenças na educação com foco nas diferenças de gênero.
Ao mesmo tempo em que esse menino se comporta assim com a minha filha, três amiguinhas dela estão "apaixonadas", mas o comportamento delas é de querer manter segredo e continuam tratando seus "amores" da mesma forma que tratam todos os outros amigos.
Não acredito na ideia de que tais comportamentos são inerentes ou instintivos de cada gênero, acredito que são reprodução da cultura na qual estas crianças estão sendo educadas. Por isso que dedico tanto tempo em observar e analisar cada pequeno comportamento.
Na prática não farei nada, mas não custa deixar o alerta aqui. Principalmente para as mães de meninos, para que procurem educá-los com menos machismo, que caso eles gostem de alguma menina, não digam "Vá atrás", digam "Converse com ela e veja se ela sente o mesmo." Mesmo por que imagino que não deva ser legal para esse menininho gostar da minha filha, admirá-la tanto e não ser correspondido. Já seria tempo de ele aprender que quando uma menina diz não, significa que ela não gosta dele, pelo menos não na mesma intensidade. Com uma conversa ele poderia encerrar essa "conquista" e se conformar e passar para uma outra possibilidade e quem sabe ser correspondido. Diminuiria o sofrimento dele e o incômodo dela.
Particularmente não gosto dessa conversa de namoro nessa fase. Embora sabia que é algo puro e inocente, encaro como sofrimento desnecessário para a idade. Pois quando se tem 6 anos, dificilmente alguém tem a sorte de gostar de alguém da mesma forma e intensidade, principalmente dentro de uma cultura onde meninos e meninas são educados de formas tão diferentes.
A minha fala aqui em casa é "Criança não namora." Vejo isso também como prevenção contra pedófilos que muitas vezes seduzem se dizendo namorados apaixonados.
Por fim o que posso dizer é que é preciso ter tempo para ouvir o que suas crianças têm a dizer. É preciso atenção para o que se passa na vidinha deles. Pois o que parece bobagem para um adulto, pode ser a coisa mais importante que está acontecendo com eles no momento. E a forma como eles lidarão, poderá ser determinante para decisões futuras, quando a coisa for realmente "pra valer".
Cristine Cabral
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terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Vamos falar sobre sexo
Não consigo entender porque qualquer coisa relacionada a sexo ganha
uma proporção tão grande, já que é algo que todo mundo faz...
Com amor, ou sem amor, mas faz.
Antes ou depois do casamento, mas faz.
Com uma única pessoa a vida inteira, ou com várias na mesma semana,
mas faz.
Com alguém do sexo oposto, ou alguém do mesmo sexo, mas
faz.
Com o intuito único e exclusivo para reprodução, ou por pura
diversão, mas faz.
Exceto celibatários, monges e pessoas assexuadas, todo mundo faz.
Sexo é uma função biológica cuja relevância é muito individual.
Para algumas pessoas é a melhor coisa da vida, para outras não tem
nenhuma importância. E mesmo essas que não dão importância têm
formas diferentes de lidar. Lembro de ter visto em um filme, há
muito tempo, que tinha o diálogo de uma prostituta com um padre que
ela dizia: “Sexo tem o mesmo significado para nós dois, é algo
sem importância, tanto que você passa a vida sem fazer com ninguém
e eu faço com qualquer um.”
Então porque falar para as crianças sobre isso é o fim do mundo?
Respostas possíveis:
- Porque ainda está muito cedo. Baseado em quê se calcula
que é cedo? A minha referência é a curiosidade da criança. Se ela
pergunta é porque já está na hora de saber. Claro que fazendo as
devidas adaptações de linguagem e passando o conteúdo aos poucos.
Minha filha acabou de fazer 6 anos, mas ela sabe que ela saiu da
minha barriga por um corte, mas que tem outros bebês que saem pelo
“pipi”. Que nos dias em que estou mais impaciente é porque está
perto do “sangue do pipi” chegar.
Quando minha filha me pediu uma irmã, tive que explicar que era
muito complicado, pois eu e o pai dela somos separados. Que os
amiguinhos da escola estavam ganhando irmãos, porque os pais
continuavam casados. Que para que ela tivesse uma irmã, primeiro a
mamãe tinha que ter um namorado, para depois fazer um bebê com ele.
Mas se o pai dela encontrasse uma namorada e tivesse um bebê com
ela, esse bebê também seria irmã.
Muita coisa já foi explicado, apenas a anatomia do ato sexual ainda
não foi informado. E só não expliquei porque ela não perguntou. (Isso vale também para explicar às crianças sobre homossexualidade, não precisa entrar na questão anatônica, basta falar em namoro, em amor que elas entendem muito mais fácil que muitos adultos preconceituosos)
-
Porque se
explicar, vai influenciar.
Bom, deixa eu te contar uma coisa: sua criança já está sendo
influenciada o tempo inteiro. Olhe os outdoors no caminho de casa
para a escola, escute com atenção as letras de música, que mesmo
que você cuide que não toque em casa, mas que tios e primos mais
velhos escutam, que o vizinho ouve, se atente para novelas, comerciais, vídeo clipes,
etc. A erotização está por toda parte e é usada e abusada pelo
marketing, da venda de biquínis, a venda de carros. E não adianta tentar
proteger seu filho do mundo. É preciso ensiná-lo a viver nesse
mundo.
- Porque criança pequena sabendo sobre tudo desestabiliza a
família. De todas as possíveis respostas essa é a mais insana.
O que desestabiliza família é a mentira e traição (e não estou
falando só entre os pais, mentir para os filhos também é muito
sério). É uma geração tentar impor sua forma de ver e viver a vida a
outra geração (tanto a anterior, quanto a posterior) sem o devido
respeito. É desrespeitar e isolar um membro da família por ser
homossexual.
A
melhor prevenção é a educação e a informação. Se você não
fala sobre sexo com seu filho, alguém vai falar. E você vai perder
a oportunidade de repassar os valores morais que espera que ele
tenha. Para as pessoas mais religiosas, vai perder a oportunidade de
passar os dogmas da sua religião. Vai deixar de alertar para os
riscos de doenças e de gravidez indesejada. Vai deixar de ser a
referência de fonte de sabedoria e conhecimento.
E
por último e mais sério de todos: quanto mais ingênua é uma
criança, mais fácil ser vítima de um pedófilo. Na postagem
Projeta
seus filhos há um texto, cujo autor nunca consegui a referência
(se souber deixe nos comentários), com dicas importantíssimas. Uma
leitura obrigatória.
Feliz 2016!
Cristine Cabral
Para continuar lendo sobre Educação Sexual:
quinta-feira, 17 de setembro de 2015
As meninas e o sexo
Minha filha é uma criança linda, não só aos meus olhos, pois sempre recebo elogios a sua beleza, inclusive com a frase "Eita, que quando ela for adolescente vai te dar trabalho... te prepara!" Frase comum, mas que me incomoda. E assim como tudo que me incomoda, parei para pensar de onde vem o incomodo...
Quando os meninos que são bonitos, essa frase não aparece. No máximo quando se pensa na adolescência dele o comentário é tipo "Vai ser o terror da menininhas!" Ou é a própria mãe admitindo que não quer nem imaginar como vai ser quando ele começar a namorar (já eu fico imaginando a sogra terrível que ela se tornará), que não quer nem pensar...
Pois eu penso! Embora não construa sonhos, nem gere expectativas. Minha filha é um ser humano com gostos diferentes do meu, que vai viver a adolescência dela em um mundo diferente do que eu vivi a minha, que vai sofrer influências diversas, além da educação que dou em casa e muitas outras coisas.
Por que ela me daria trabalho quando for adolescente? Só porque ela vai querer ter uma vida sexualmente ativa? Só porque a beleza dela irá despertar interesse nos meninos e em algumas meninas também? Eu só terei trabalho se for tentar evitar o inevitável: ela fazer sexo.
Lembro que há 25 anos atrás a minha geração foi o primeira a "ficar". Embora acredite que o "fenômeno" já devia acontecer antes, mas a minha geração foi a primeira a assumir o comportamento de beijar primeiro, perguntar o nome depois; a beijar alguém numa noite sabendo que no dia seguinte não haveria qualquer compromisso entre os dois "beijantes", a não ser o de repetir, caso tivesse sido interessante para ambos. Que problema era explicar isso para as mães!!! E para as avós??? Muitas achavam o "cúmulo do descaramento". Quantas de nós casou virgem? Quantas de nós casou com com o primeiro e único parceiro? Quantas de nós casou?
Cabe a mim, como mãe, alertá-la para as consequências de uma vida sexual ativa. Instruí-la quanto aos riscos de uma gravidez precoce, quanto a doenças sexualmente transmissíveis, que existem meninos que mentem só para conseguir sexo, assim como existem meninos que se apaixonam loucamente, tanto que podem se tornar inconvenientes. Que camisinha deve ser usada SEMPRE, mesmo depois de casada, pois traições são fatos (perdoáveis ou não) e com elas podem vir as DST's. Que sexo é algo muito bom, mas que exige responsabilidade. Que pode ser feito sem amor, mas com amor é muito melhor. Que príncipe encantado não existe, mas que existem caras legais cujos defeitos não serão problemas aos olhos dela. Que as mulheres têm tanto direito sobre seus corpos quanto os homens, mas que ainda tem gente que acha errado uma mulher ter tido vários parceiros, que "no meu tempo" se dizia que era "rodada" (espero sinceramente que esse termo seja esquecido nos próximos 10 anos).
Não sei que caminho ela irá escolher. Não sei se ela vai gostar de meninos, ou de meninas, ou dos dois. Não sei se ela será romântica para esperar se entregar a um grande amor. Não sei se ela será uma "feminist bitch". Só sei que estarei sempre a apoiá-la. Sem qualquer tristeza pelo fato "meu bebê" (já não uso essa expressão há anos, a não ser para implicar com ela :) ) estar se tornando uma mulher independente. Sei que vou estar disponível para dar colo quando a primeira desilusão amorosa vier... sem essa conversa de "Isso é besteira, você é muito nova para saber o que é o amor, você tem mais é que se dedicar aos estudos."
Quem estiver lendo isso pode até não concordar com a minha postura e não ouso dizer que é a coisa certa a fazer. O que exponho aqui é apenas a MINHA forma de ver o mundo e a vida... a minha forma de educar minha filha.
Não quero ser uma mãe necessária. Se eu sou necessária é porque ela ainda é dependente. Ela só aprenderá a voar com as próprias asas se eu der espaço. Sei que ela irá cair. Sei que irá doer (nela e em mim). Mas o erro faz parte da aprendizagem. A dor e o sofrimento fazem parte da vida (da dela e da minha) e quanto mais cedo a gente aprende a lidar com eles, menos a gente adquire cicatrizes emocionais.
A palavra chave é RESILIÊNCIA, mas isso é assunto para um outro post.
Cristine Cabral
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Boa Mãe...
Conversando com algumas amigas
recentemente falei para uma delas: "Mas eu não sou uma mãe boa". Ela estranhou,
claro! Como poderia dizer isso de mim mesma? Tentei explicar da mesma forma que
tentarei fazer aqui.
Na realidade sou uma boa mãe, sei disso.
Mas, não sou uma mãe boa. E isso me é dito por pessoas diferentes (amigos, marido pediatra, professora, tia, etc.) de diversas
formas, às vezes em tom de brincadeira, às vezes em tom de ironia, às vezes
sério....Mas, então que tipo de mãe eu sou?...
Eu sou uma mãe que ensinou desde
o primeiro dia o filho a dormir sozinho no quarto dele. Sou uma mãe que não
pegou no colo o filho imediatamente- nem da primeira vez que ele chorou na
maternidade, nem até o momento. Sempre,
espero para reconhecer que tipo de choro é, e se for de manha... realmente “des-sensibilizo”
ele, ou seja, não o pego no colo, e aguardo até ele parar para lhe dar atenção
ou colocar no colo.
Sou uma mãe que ensinou o filho a
dormir sozinho no berço e não no colo. E posso dizer que apesar de ser muito
bom. Vez ou outra- quando não estamos em casa e com seu berço ou cama a
disposição- fico pensando que teria sido útil nesses momentos tê-lo ensinado a
dormir também no colo de mãe ou pai...Mas, depois penso que fiz realmente o melhor.
Eu sou uma mãe que tirou a
mamadeira do filho e o deixou com o copo de transição para tomar leite, quando
ele tinha um ano e três meses. Suco e água ele já tomava no copo há tempos que
nem lembro....
Eu sou uma mãe que pouquíssimas
vezes- não chega a completar os dedos de uma mão- levou o filho para o próprio
quarto e o fez dormir com ela e o marido. Talvez, pelo fato de que apesar do
aconchego de pai e de mãe, tanto ele quanto nós dormimos melhor cada um em seu
quarto- afinal foi assim que acostumamos desde o primeiro dia- e talvez por ele
ter a certeza de que em muitos outros momentos podemos ficar aconchegados que não
aquele...
Eu sou uma mãe que não corre para
segurar o filho quando ele cai, espera primeiro para ver qual vai ser a reação
dele.
Eu sou uma mãe que deixa o filho
no berço sozinho, brincando, e vai tomar um banho tranquilo, pois sei que ele
estará seguro ainda que sozinho.
Eu sou uma mãe que nunca deu a
comida muito “mastigada para o filho”. Lembro da minha mãe ver meu filho comer
banana aos pedaços e ficar horrorizada, afirmando com veemência que eu teria
que amassar se não ele iria engasgar....Não adiantou eu explicar que ele foi
aprendendo a mastigar desde que iniciou a alimentação complementar e que não
iria engasgar pois sabia mastigar....Recebi um baita discurso e depois mais uma
vez a frase “Você é uma mãe ruim”.
Enfim, o que quero dizer é que
realmente desde que meu filho nasceu incentivo ao máximo sua independência e
autonomia, porque sei como profissional, como ser humano e hoje também como mãe
que isso é o melhor para ele. É claro, que não é fácil. É claro que ouço muitas
críticas e também recebo muitos olhares admirados como se nem eu nem meu filho fôssemos desse planeta. E sim, às vezes,
tenho em mim o desejo que ele fosse mais dependente um pouco, me pedisse mais
colo...Mas, depois esse meu desejo passa....Principalmente quando o vejo ganhando
mais autonomia e confiança. E, principalmente, percebendo que ele está sabendo
discernir que para o mais importante, para o que mais precisar, sempre
terá o meu colo.
Então, já estou quase acostumada
com a frase “Você não é uma boa mãe”. E, em certa medida, a aceito, pois
realmente sou uma mãe mais dura, mais firme, uma mãe que é capaz de ouvir o
filho chorar por quase 10 minutos e esperar do outro lado do porta, com o
coração na mão, para ver se ele consegue se acalmar sozinho.... o que talvez
não me qualifique como uma mãe boa...Mas, tenho certeza de que sou uma boa mãe.
Afinal, todas nós somos as melhores mães que nossos filhos poderiam ter,
sejamos mães boas (mais sensíveis, ou apegadas ou seja como for) ou mais duras e firmes....Somos boas mães.
Não existe um único tipo de
maternidade, nem um único tipo de criança. Contudo, você e eu somos as melhores
mães que nossos filhos podem ter, pois somos suas mães.Por isso, posso dizer que não sou uma mãe boa, mas sim sou uma boa mãe.
Vanessa Nascimento
Vanessa Nascimento
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Amoras Amassadas
Essa historinha ouvi há muito tempo, não lembro onde, nem quem me contou. Mas me acompanha sempre, principalmente nos atendimentos infantis. Mais ainda quando o motivo da queixa provem do comportamento dos pais.
"Era uma vez, uma mulher que criava cinco filhos sozinha. Eram muito pobres e moravam em uma localidade rural afastada do movimento da cidade.A única distração que ela e as crianças tinham era no final da tarde irem colher amoras selvagens que cresciam por perto do terreno onde moravam.
Cada um colhia o que podia e quando chegava em casa a mãe juntava todas as frutas e dividia igualmente para todos. Deixava as melhores para as crianças e ficava sempre com todas as amoras amassadas.
Certo dia a mãe ficou doente e não pôde ir para a colheita, mas as crianças foram, fizeram a colheita e dividiram tal qual a mãe fazia todos os dias, deixando para a mãe doente todas as amoras amassadas"
Há quem possa dizer que as crianças foram insensíveis por não darem à mãe doente as melhores frutas. A questão é que a mãe nunca explicou o por quê de ela sempre ficar com as amassadas. As crianças só fizeram o que cresceram vendo a mãe fazer.
Sempre que vejo uma mãe levando a mochila do filho, em pé no ônibus enquanto a criança vai sentada, deixando de comer no lugar que ela gosta para comer no lugar onde tem (ou dá de brinde) brinquedos lembro dessa história e me pergunto: será que ela sabe que está "comendo amoras amassadas"?
Não tem nada de errado em querer dar o melhor para os filhos e ficar com a parte menos "doce". Desde que se deixe claro o por quê de estar fazendo isso. Qual a mensagem que se quer ensinar às crianças. Porque você pode achar que está ensinando "Podemos abrir mão de algumas coisas pelas pessoas que amamos", mas a criança pode está entendendo "Você é mais importante do que eu." O que não deixa de ser... aos olhos de muitas mães os filhos são mesmo mais importantes, mas o que não é educativo é a criança crescer achando que todos que estão à sua volta estão ali para servi-la. O mundo não irá tratar seu filho como a pessoa mais importante do recinto.
E você anda comendo somente as frutas amassadas?
domingo, 10 de maio de 2015
As Relações Familiares e a Formação do Sujeito Emocional
Atualmente estou fazendo a pós-graduação em Psicopedagogia. E esta semana precisei redigir um texto como uma das avaliações de disciplina.
Achei o assunto tão relevante que resolvi compartilhar com vocês o texto enviado:
Aluna:
Cristine Costa Cabral
Atividade
Avaliativa 1
Módulo: Família:
Relações, Vínculos e Aprendizagem
As
Relações Familiares e a Formação do Sujeito Emocional
Este módulo trata
da importância da família como base estrutural para as demais
relações sociais, emocionais e de aprendizagem que acompanharão o
sujeito ao longo de sua vida, nas demais instituições fora da
família, como escola, trabalho, etc. Estudou-se as questões das
particularidades que envolve cada família, tendo hoje em dia não
mais a família nuclear patriarcal como único modelo. E como esta,
no papel de primeira ensinante, é fator implicador do
desenvolvimento da aprendizagem na escola.
“Criança não faz
o que a gente diz, criança faz o que a gente faz.” Esta frase é
uma constante nos meus diálogos. Seja numa roda de amigos (que sejam
ou não pais), seja em atendimento clínico, seja em palestras ou
cursos. Foi a forma mais sintética que encontrei para ressaltar a
importância que os pais (e demais adultos que convivem com as
crianças) têm na educação e desenvolvimento infantil.
Essa questão vai
desde as questões mais simples como incentivar a criança a comer de
forma mais saudável, o que se torna praticamente inviável quando os
pais não possuem hábitos alimentares adequados. Até as questões
mais básicas da educação social, como o uso das “palavrinhas
mágicas”. Como uma criança aprenderá a pedir por favor, se em
casa ninguém pede nada usando esta palavra, seja de mãe pra filho,
seja de pai para mãe?
A escola sofre com a
falta de educação básica. O que antes as crianças aprendiam em
casa (regras de comportamento social, regras de etiqueta básica,
etc.), hoje em dia esta demanda está sendo destinada à escola. As
causas deste evento são tão diversificadas quanto os modelos de
família da atualidade. Seja por que, nos primeiros anos de vida, a
criança ficou aos cuidados de uma babá que praticamente não falava
com a criança, deixando-a a maior parte do tempo em frente à
televisão, seja por que a mesma ficou sob os cuidados de avós condescendentes, que ao menor gemido da criança já corriam para prover qualquer coisa que esta pudesse vir a desejar.
Este tipo de
educação já vem sendo denominada por alguns estudiosos como
“Crianças Terceirizadas”. Ou seja, com a enorme demanda de tempo
destinado ao trabalho, os pais cada vez mais estão menos tempo
presentes e vêm terceirizando a educação, contratando babás,
professores particulares, psicólogos, escola de tempo integral,
cursos de línguas, escolinhas de esporte, etc. E o mais básico da
estrutura humana está sendo colocado em segundo plano: o afeto, a
atenção, o carinho, a dedicação, a educação de valores, a
imposição de limites...
Como conclusão o
que posso colocar é que a parceria entre a escola e a família é
essencial. Ambas têm papel fundamental na formação do cidadão,
porém se esta não oferece modelos adequados de comportamento, de
valores, de limites, pouco aquela pode fazer.
A curto prazo o
problema não parece ser tão grave... alguns dias de suspensão, ou
mudar constantemente de escola, ou colocar numa escola pública como
punição ou como uma forma dos pais dissessem “lavo minhas mãos,
não gastarei mais meu dinheiro com a sua educação, se você não
quer ser educado”. Porém a médio e longo prazo as consequências são gravíssimas: mais e mais professores sendo agredidos (verbal e
fisicamente) e adoecidos, incapacidade dos jovens de gerar vínculos
sociais adequados e consequentemente mais sofrimento emocional, mais agressividade, mais depressão, risco social do desenvolvimento de
conflitos com a lei, visto que se a autoridade dos pais e professores
não é reconhecida, existe a probabilidade de que a autoridade legal
e jurídica também não seja, dentre outras consequências de maior
ou menor gravidade.
A educação de cada
criança não é uma questão só da família, ou só da escola, é
uma questão de todos, é uma questão social. Quando estivermos na
terceira idade, é nas mãos destas crianças que nós e toda a
sociedade estaremos.
Deixem nos comentários que nota dariam heheheh. Vamos ver se os meus professores concordam com vocês.
segunda-feira, 2 de março de 2015
Filho X Grana
Algumas semanas atrás numa conversa com uma amiga ela me fez a seguinte pergunta: Como você pensa em ter outro filho? São muitas despesas! Não dá para ter outro filho não. Eu respondi que no momento que vivo com minha família realmente não pensamos em ter outro filho... agora!
A vinda do primeiro foi super planejada e a do segundo não pode ser diferente. Mas, em breve sim poderemos ter outro filho a partir de alguns ajustes no orçamento, acredito que em cerca de dois anos estamos "encomendando" mais um filho.
Minha amiga continuou surpresa, afirmando que para ela era impossível ter outro filho dado os gastos com o primeiro. Vai e volta acabo tendo essa conversa de dinheiro X filhos com várias pessoas. Elas dizem que são muitas despesas, que tudo é muito caro, que no mundo de hoje só podemos ter um filho, que dá muito trabalho etc.
Nessas horas lembro-me bem de outra amiga minha que sempre desejou muito ser mãe desde o início da adolescência e que me dizia: se as pessoas criam filhos,( isso mesmo no plural) com um salário mínimo eu tenho certeza que eu também consigo.
Bem, então para aqueles que estão lendo e que já passaram ou passam pelas mesmas interrogações de dinheiro X filhos, deixo aqui minha opinião e como opinião que é, você pode jogá-la fora por completa, aproveitar algumas partes, ou ainda tudo, ou seja, faça como quiser.
Sei que muitas famílias criam filhos com um salário mínimo ou um pouco mais, mas realmente não quero isso para mim e meus filhos. Quero poder levá-los a passeios culturais interessantes e enriquecedores, como cinema, teatro, livrarias...Poder viajar com eles e conhecer lugares e culturas novas e diferentes. E sei que com um salário mínimo ou um pouco mais, não conseguiria isso.
Quero que eles tenham acesso a boa educação, a escolas de qualidade, a um bom curso de línguas, ou ainda quem sabe uma escola bilíngue...aí acho que talvez já não dê...Mas, com certeza eles aprenderão pelo menos duas línguas além da sua língua pátria.
Quero poder proporcionar acesso a bons médicos, hospitais, enfim um bom plano de saúde. Uma alimentação balanceada, lazer com atividade física.
Quero que eles tenham acesso a livros, música, e que com tudo isso que falei acima, eles estejam em condições de competir por um lugar nesse mercado de trabalho louco e cruel tão afunilado. Principalmente, quero que sejam conscientes de suas escolhas e que façam algo que lhes dê prazer. Desejo que nunca trabalhem apenas pelo dinheiro ou para ter algo, ou para participar de um determinado grupo, que o trabalho deles tenha um sentido, um propósito de vida para eles, pois assim sei que terão grande chance de serem felizes.
Agora quanto custa tudo isso? Barato não é, mas também tenho certeza que não é preciso ganhar R$ 15.000,00 para conseguir isso.
Principalmente por que muitas dessas coisas que desejo para meus filhos requer tempo, disponibilidade dos pais. E para ganhar acima da média, ou muito acima da média do mercado,você deve investir muitas, e muitas, horas do seu tempo nesse projeto.
A
escola de qualidade não necessariamente é a escola mais cara. E não se
esqueça que nós pais temos um papel complementar ao da escola. Nossos
filhos irão aprender na escola sim, mas também conosco em casa e com uma
vida de estímulos e interação social que nós podemos proporcionar a
eles. A escola tem que lhe agradar em estrutura física e de pessoal.
Para mim enquanto psicóloga, penso ser muito importante a presença desse
profissional na escola. A linha pedagógica também é de extrema
relevância. A distância da sua casa, afinal você irá fazer esse caminho
por muito tempo. Enfim, dá para pesquisar e escolher uma boa escola de
valor intermediário. Não precisa ser a mais cara, nem a mais barata.Os planos de saúde estão pela hora da morte, mas dá para pesquisar e também conseguir um bom plano sem ser o mais caro, ou dá para conseguir pagar o mais caro de repente... Afinal saúde tem que cuidar. E principalmente prevenir e prevenir na maioria das vezes saí bem em conta. Além do que sempre se pode poupar em determinados setores para poder investir em outros.
O mercado oferece inúmeras tentações para quem tem filhos, muitas delas podemos passar sem ou conseguir mais baratas etc.
"Meu filhos só usa fralda tal" pode ser...mas vc já testou outras? Mesma coisa para pomadas e tantas outras coisas que existem inúmeras opções... teste. Existe um mundo de possibilidades para cada item que a criança usa e com preços inúmeros, também.
A propaganda é linda a maioria das mães que você conhece usa....mas, já se permitiu fazer um verdadeiro teste comparativo entre os produtos, esquecendo-se por um tempo de toda a propaganda vinculada na mídia? Seu filho pode ser um consumidor bem diferente dos demais e preferir outros produtos que não o da maioria. Contudo, você só saberá disso se permitir experimentar opções diferentes.
Será que precisa mesmo de um sapato combinando com cada roupa? Será que a festa de aniversário precisa mesmo ser "aquela" festa de aniversário? Sempre existem opções intermediárias e não é porque é mais barato que não é bom, que não presta.
Existe todo um jogo de mercado que leva a maioria de nós a querer comprar sempre o melhor do melhor, e dar tudo e mais um pouco para aquela pessoinha que nós mais amamos no mundo...Contudo, o melhor do melhor é muito relativo e cada família tem que descobrir o seu.
Acredito que quando deixamos de nos preocupar tanto ou de querer tantas coisas para nossos filhos que nem mesmo sabemos se eles querem, não precisamos trabalhar tantas horas mais, ficar ausente horas mais etc. E com isso conhecemos melhor nossos filhos, contribuímos mais para o seu desenvolvimento e uma família maior com irmãos com certeza faz parte também desse pacote.
É difícil não sucumbir ao encantador mundo do consumo e nem sempre conseguimos,
eu sei! Mas, não devemos parar de tentar de não nos deixar consumir.
Vanessa Nascimento
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Nem castigo, nem recompensa. Consequência!
Como moramos só nós duas em casa e não tenho empregada, enquanto faço as tarefas domésticas, deixo minha filha brincar livremente. E ela não só se diverte muito, como observo o quanto essas brincadeiras solitárias contribuem para o desenvolvimento da imaginação e criatividade dela.
Recentemente ela descobriu um baldinho de massinhas que ganhou em alguma data comemorativa que nem lembro. Estava guardada, pois entregava aos poucos, para não gastar todas e também para diminuir a sujeira que euzinha aqui é quem tem que limpar. Mas como ela está mais crescida e já estava perto do carnaval e sabia que iria vir uma folga, entreguei todas.
Resultado1: ela misturou todas as cores e deu aquela massinha "cor de cocô", acho que vocês sabem do que estou falando. E brincando no chão acabou ficando aquele grude. Grude em todos os formatos: borboleta, flor, passarinho, etc. Oh! Céus...
Na hora que fui limpar disse que ela iria me ajudar e a parte de esfregar para desgrudar seria responsabilidade dela. (Para que pensou: "tadinha..." sugiro a leitura do post "Ouwnnn... o 'bichinho'") E assim fiz. Varri, espalhei o detergente, (menos tóxico que os outros produtos de limpeza mais pesada) entreguei a esponja molhada e parti para limpar o restante da casa enquanto ela esfregava o chão.
![]() |
| Imagem real da minha pequena |
Enquanto limpava, pensava neste post. Não estava punindo, nem dando uma nova brincadeira, estava apresentando a consequência da brincadeira dela. Vai caber a ela, depois da experiência, saber se o prazer de brincar de massinha será diminuído frente à necessidade de ter que limpar tudo depois, ou se limpar é uma segunda brincadeira, depois da primeira.
Resultado2: Ela limpou bem direitinho. Muito bem mesmo. Não esperava uma limpeza de qualidade, tinha apenas a ideia de uma lição de consequência, mas descobri que ela é capaz de limpar bem. (Lembrei do post "Não subestime")
Quando cheguei na parte da casa em que ela estava limpando, disse:
- Pronto. Já pode parar que agora vou passar o pano onde você já limpou.
E a resposta dela foi:
- Espera mãe... ainda não terminei. Ainda falta ali. Eu queria ter limpado todos os quadrados.
Muitas vezes as mães (e pais) impõe um castigo, pois acreditam que uma punição é a melhor forma de eliminar algum comportamento inadequado da criança, mas além de não ser a melhor estratégia (Ver posts "A Palmada", "Reconhecimento é bom e todo mundo gosta") ainda tem a questão de que a mesma coisa pode ser uma punição, ou uma recompensa, variando de pessoa para pessoa.
Ou seja, se a minha ideia fosse "castigar" minha filha fazendo com que ela fizesse a limpeza com a ideia de que ela "nunca mais" (doce ilusão acreditar que um só evento elimina um comportamento inadequado) iria fazer sujeira com massinha, estaria frustradíssima, pois não só a brincadeira de massinha vai permanecer, como pode aumentar de frequência.
Sendo assim, melhor que uma punição aleatória (ficar sem tv, ter as massinhas confiscadas, etc.) apresentar a consequência da ação é a melhor forma de educar. Assim, quando ela estiver mais velha, poderá ser mais consciente das escolhas que fizer, pois saberá que independente do que escolher, SEMPRE haverá consequências.
Cristine Cabral
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
"Onde está a mãe dessa criança?"
Quantas vezes você ouviu essa pergunta?
Quantas vezes você fez essa pergunta?
Expressão ouvida/lida sempre que uma criança se torna centro das atenções... de forma negativa! Seja fazendo um escândalo, seja em uma situação de risco de vida eminente, seja por uma aparência suja, mal cuidada.
Mas já experimentou usar um pouco de empatia na hora de fazer essa pergunta?
Ou quem sabe perguntar também pelo PAI dessa criança?
Ou mesmo NÃO fazer essa pergunta e tentar ajudar de fato?
Já passou pela sua cabeça que a mãe da criança birrenta que faz escândalo no shopping é a mesma que trabalha fora o dia inteiro e as vezes ainda estuda a noite e quem passa o dia com a criança é uma babá com baixa instrução, ou uma vovó que só vive pro "bichinho"não ficar triste, não ficar com raiva, que deixa a criança fazer o que quer todos os dias da semana? (Para ler mais sobre, sugiro a postagem Ouwnnn...'o bichinho') A mesma mãe que se enche de culpa todos os dias que chega em casa e o filho está dormindo... A mesma mãe que não quer gastar o pouco tempo que tem com o filho, brigando com a criança.
Não estou dizendo que a birra passe a ser admirada como comportamento correto, mas quero levantar a bandeira da EMPATIA.
As vezes é mesmo desleixo materno. Mas de onde vem esse desleixo? Será que é uma mãe muito jovem que mal consegue cuidar de si mesma? Será que foi uma gravidez planejada? Será que essa mãe não culpa o filho por tudo que ela não pode mais fazer? Será que ela tem depressão pós-parto, ou depressão clássica? Ou será que ela realmente está se esforçando, mas não conseguiu (ainda)? Será que ela tem os mesmos conhecimentos sobre higiene, alimentação, desenvolvimento motor e cognitivo que você? Será que ela teve acesso ao mínimo de escolarização? Será que ela TEVE MÃE?
A maternidade não é um sentimento inato de todas as fêmeas da raça humana. Há alguns séculos esse sentimento sequer existia. A mortalidade infantil era enorme, de forma que o apego só vinha depois que o bebê "vingava". As crianças eram vistas como mini-adultos, sem que fosse preciso qualquer cuidado diferenciado, as ricas eram criadas e educadas por serviçais e mal tinham contato com os pais, enquanto as pobres se tornavam mão de obra assim que alcançavam o mínimo de autonomia e coordenação motora. Ainda hoje existem situações semelhantes, tanto na terceirização da educação que hoje em dia é delegado à escola, professores particulares, babás, psicólogos, psicopedagogos, etc. Quanto na exploração do trabalho infantil, desde os vendedores de balas, aos que estão expostos à trabalhos mais arriscados.
Não se nasce sabendo ser mãe. Muitas de nós brincaram de bonecas, ensaiando esse momento a vida inteira e ainda são cheias de dúvidas. Várias, quando brincavam de boneca, não eram a mãe, mas a professora, a doutora, ou em caso de bonecas tipo Barbie imitavam qualquer uma das profissões do mundo. E outras tantas sequer gostavam de bonecas.
Ser mãe não é uma tarefa fácil, para muitas. Tanto que muitas mulheres adiam o mais que podem a decisão de ter um filho, por medo de não conseguir desempenhar esse papel com "excelência" (termo muito usado na administração, mas impossível de alcançar na vida pessoal, principalmente nas relações pessoais).
Se naturalmente já não é fácil, imagine para quem está sob constante
Qual o limite entre a proteção e a super-proteção? Entre o cuidado e a paranoia?
Não ouso responder, pois eu também não sei. O que sei é que todas nós erramos ou iremos errar. Seja por desatenção, desinformação, ou super-proteção. Seja por insuficiência ou por excesso.
E depois surge a expressão "pagar com a língua"... Quem fala, paga, por que não usou da empatia na hora de falar.
Mais amor, por favor!
Que tal deixar para fazer essa pergunta quando vir uma criança com um bom comportamento e aproveitar para elogiar a mãe e sua cria?
Cristine Cabral
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terça-feira, 23 de setembro de 2014
Quando os adultos temem unicórnios
Sabe a expressão "procurar chifre em cabeça de cavalo"? Pois é como eu vejo alguns adultos...
Diálogo com minha filha. (Troquei os nomes das crianças para proteger os coleguinhas de classe, não que tenham feito algo reprovável, mas por não ter conversado com as mães deles sobre o assunto.)
- Mãe, o João deu um beijo no José.
- Sim meu amor, amigos se beijam.
- Mas são dois meninos.
- Tudo bem, anjo, você não beija as suas amiguinhas?
- Eles vão se apaixonar?
- Assim: criança não se apaixona, criança não pode namorar, nem menino com menino, nem menina com menina e nem menina com menino. Quando crescer cada um escolhe.
- Mas a tia não gostou que eles se beijaram.
- Onde foi o beijo?
- Na bochecha.
E agora? Tive de brincar, para não demonstrar meu descontentamento. Complicado quando uma "autoridade de ensino" tem uma opinião contrária à sua.
- Tia bobinha. hehehehe
Procuro de todas as formas dar uma educação inclusiva, sou contra qualquer tipo de preconceito e entendo que esses pequenos episódios do dia a dia são as melhores oportunidades de ensinar o respeito a toda e qualquer pessoa. Mas é complicado ir contra a maioria.
Até entendo a postura da professora. Afinal numa situação onde várias crianças que têm orientações diferentes, pais com opiniões diferentes é complicado. E reproduzir o discurso padrão é mais simples, principalmente se ela mesma tiver essa convicção.
Explica, mas não justifica.
O que me incomodou muito foi o fato uma coisa simples, uma brincadeira, ou demonstração de carinho se tornar um "caso". Esse foi o assunto da manhã aqui em casa. Não sei se as outras crianças ficaram tão intrigadas quanto a minha filha, mas não é para tanto.
A maldade está na cabeça dos adultos, são eles que ficam procurando chifre em cabeça de cavalo e temem que essas brincadeiras sejam indícios de algum tipo de comportamento homossexual. (Já escrevi sobre esse tema no post Será que ele é...?)
Um beijo na bochecha não tem qualquer significado isoladamente, mas pode desencadear um série de comportamentos preconceituosos na cabecinha das crianças e assim teremos mais uma geração de pessoas que não sabem respeitar as diferenças.
E se por acaso alguns daqueles alun@s (@ é a forma de incluir os dois gêneros na mesma palavra) vier a se descobrir homossexual um dia? Certamente irá lembrar do olhar da professora, do riso dos colegas e começará o sofrimento desta pessoa. E se nenhum deles nunca vier a se descobrir gay, o comportamento de rir, de fazer piadas, ou fazer cara feia com demonstrações de carinho públicas homossexuais permanecerá.
Muitas mães e pais temem que seus filhos sejam homossexuais, alguns por questões religiosas, mas a grande maioria por ser uma condição (não é escolha, ou opção) que implica em sofrimento. E nenhuma mãe quer ver um@ filh@ sofrer. Mas fazem os filhos de outras mães sofrerem quando reproduzem comportamentos preconceituoso inconscientemente (embora existam muitas pessoas que são conscientemente preconceituosas, olhando apenas para a própria opinião e ignorando o sofrimento alheio, infelizmente)
Homossexualidade (não mais homossexualismo, fui corrigida no outro post sobre o assunto. O "ismo" dá ideia de doença, o "lidade" de identidade) não me é incômodo nem para conviver, muito menos para falar sobre o assunto. Respeito-@s muito. Principalmente aquel@s que sofreram muitos preconceitos, inclusive na família, mas que andam de cabeça erguida, assumid@s e sem fingimentos.
O que me incomoda (e muito!) é essa brincadeira de "namoradinho". Sou absolutamente contra a adultização, já que namorar é coisa que só gente grande faz. Existe também uma boa dose de machismo implícito nesse tipo de brincadeira, já que é "engraçado" se o menininho tenta "pegar" as meninas, mas se for a menininha a querer beijar os todos os meninos a brincadeira já não é tão engraçada.
Sem falar que é uma medida protetiva contra pedófilos, que muitas vezes se dizem "namorados apaixonados" para seduzir e enganar.
Criança não namora! Com ninguém! Ponto final.
Quanta coisa por causa de um beijo... quanto preconceito implícito. As crianças não têm maldade e reproduzem o que vêem e ouvem. São espelhos dos adultos que a cercam. Estes menininhos provavelmente têm pais carinhosos que beijam os próprios pais (avós da criança), beijam irmãos e amigos e só. Não chega nem a ser assunto em casa, já que na casa deles tem beijo para todo mundo, vindo de todo mundo.Carinho não faz mal. Preconceito faz.Por um mundo com mais respeito e menos preconceito.
Amem (é sem acento mesmo)
Cristine Cabral
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domingo, 31 de agosto de 2014
O tempo, o momento, a maternidade e a eternidade
"O tempo é relativo" máxima conhecida por todos, mas nunca essa relatividade é tão intensa quanto quando se tem um filho.
Normalmente contamos o tempo por eventos ou momentos... tempo de espera por um ônibus, pelo fim de semana, pelo fim do ano, pelo fim do curso, etc. Mas ser mãe é uma infinidade de eventos e momentos na qual a relação com o tempo é diferenciada. Rápido e lento se misturam, existem simultaneamente.
Já na gestação essa relatividade é sentida. 9 meses, 40 semanas, 280 dias uma espera interminável.
Mas quando se para para pensar que tudo começa com apenas 2 células e resulta no milagre da vida e não uma vida qualquer como uma plantinha ou um animalzinho, mas uma pessoa, um ser humano capaz de amar, de aprender qualquer coisa que a humanidade já produziu ou descobriu, capaz de criar o que ainda parece impossível. Menos de um ano parece muito pouco para uma criação de tamanha importância e potencialidade.
Quanto tempo demora um ano para passar? 365 dias? A espera por um carnaval, uma páscoa, um dia das mães, um mês de férias, um dia dos pais, alguns feriados e o ano acaba quando se aproxima o natal...
O primeiro ano de vida de um bebê é uma vida em um piscar de olhos para uma mãe. Um piscar de olhos com uma coleção de memórias e emoções que parece que muito mais tempo passou.
Se contamos o tempo colecionando conquistas, o primeiro ano de vida é uma eternidade: a primeira vez que segura o pescoço, o primeiro sorriso espontâneo (não-reflexo), a primeira vez que ergue o tronco quando de bruços, a primeira vez que senta, a primeira tentativa de engatinhar, a primeira vez em pé sem ajuda, o primeiro passo, a primeira palavra, mesmo que seja apenas a mesma sílaba repetida, mas com a intenção consciente de comunicação... Fora centenas de historinhas engraçadas, aventuras e sustos. Quantas coisas em tão pouco tempo.
365 dias e um serzinho indefeso, com apenas capacidades reflexas, se torna alguém capaz de andar, falar, se exibir, conquistar atenção e (até certo ponto) manipular um adulto.
Mas existe o contra-ponto, quando a eternidade é o tempo que demora a passar, quando este congela e o ponteiro parece andar para trás. O tempo de um antitérmico fazer efeito, o tempo que leva para o bebê pegar no sono para a mãe finalmente poder descansar e ironicamente, o tempo em que o bebê está dormindo, que por menor que seja, é tempo suficiente para a mãe sentir saudade e torcer para que já acorde.
E se não acorda o tempo é de contemplação.
Este sim é o momento em que o tempo congela... admirar aquela pessoinha dormindo, olhar cada centímetro do corpo, perceber cada detalhe, cada dobrinha, olhar cada um dos dedos e unhas, sorrir junto quando ele sorri dormindo, observar a respiração, por a mão para sentir aquele coraçãozinho... Sentir um amor imenso, maior que o tempo e o espaço e muitas vezes chorar copiosamente numa mistura de sentimentos: amor, felicidade extrema, ternura, ansiedade e algumas vezes medo (as proporções variam de mãe para mãe)
Volto e meia estou perguntando às pessoas: "Qual foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?". É só uma pequena referência para uma reflexão: "Você está vivendo, ou só existindo?" Pois se ligamos o automático por muito tempo a vida passa e você não percebe. Os bebês se tornam crianças, estes se tornam adolescentes e depois adultos e você nem viu.
Dizem que depressão é excesso de passado, ansiedade é excesso de futuro. O passado já foi e o futuro ainda não chegou. Só temos o presente.
Curta o seu momento, a sua criança só terá a idade que ela tem hoje neste momento específico. Tudo mais pode-se fazer depois, mas testemunhar e compartilhar do crescimento e desenvolvimento de uma criança, da sua criança, é um momento que não se repete.
As coisas se vão, as pessoas também, mas as lembranças dos momentos, principalmente os felizes, vão conosco para a eternidade.
Cristine Cabral
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