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sábado, 11 de junho de 2016

"Mãe, tem um menino apaixonado por mim."



E eis que aos 6 anos de idade a rotina da minha filha passa a ser alterada pela "paixão" de um menino.
Não estou preocupada, nem com ciúmes, mas como não deixo nada passar sem antes analisar sob alguns aspectos, vamos lá:
- Mãe, o menino do 1o. ano F passa o recreio me seguindo, o tempo todo me olhando e eu não gosto disso.
Como não há qualquer invasão do espaço dela, não vou tomar qualquer atitude, as vivências são mais pedagógicas do que qualquer lição. E não há qualquer necessidade (até o momento) de "salvar" minha filha.
A primeira coisa que me veio a cabeça foi que algum adulto deve ter dito "Se você gosta dela, vai atrás." Se não disseram diretamente para ele, é muito provável que tenha ouvido essa frase na fala dos adultos, se referindo como a forma como os homens devem se comportar quando gostam de alguma mulher. Porém o pensamento de crianças nessa fase é puramente concreto, logo, "ir atrás" foi entendido de forma literal e assim ele passou a segui-la durante o recreio.
O que respondi ao comentário dela foi:
- O que você pode fazer é ir falar com ele e pedir por favor que pare de lhe seguir porque você não gosta.
O que ela fez no outro dia, mas que semanas depois ela veio me dizer que não adiantou nada, que onde ela está ele fica por perto, sempre olhando para ela.
Em tempos de debates sobre "Cultura do Estupro" (não entrarei nesse mérito aqui) fico pensando sobre as diferenças na educação com foco nas diferenças de gênero. 
Ao mesmo tempo em que esse menino se comporta assim com a minha filha, três amiguinhas dela estão "apaixonadas", mas o comportamento delas é de querer manter segredo e continuam tratando seus "amores" da mesma forma que tratam todos os outros amigos.
Não acredito na ideia de que tais comportamentos são inerentes ou instintivos de cada gênero, acredito que são reprodução da cultura na qual estas crianças estão sendo educadas. Por isso que dedico tanto tempo em observar e analisar cada pequeno comportamento.
Na prática não farei nada, mas não custa deixar o alerta aqui. Principalmente para as mães de meninos, para que procurem educá-los com menos machismo, que caso eles gostem de alguma menina, não digam "Vá atrás", digam "Converse com ela e veja se ela sente o mesmo." Mesmo por que imagino que não deva ser legal para esse menininho gostar da minha filha, admirá-la tanto e não ser correspondido. Já seria tempo de ele aprender que quando uma menina diz não, significa que ela não gosta dele, pelo menos não na mesma intensidade. Com uma conversa ele poderia encerrar essa "conquista" e se conformar e passar para uma outra possibilidade e quem sabe ser correspondido. Diminuiria o sofrimento dele e o incômodo dela.
Particularmente não gosto dessa conversa de namoro nessa fase. Embora sabia que é algo puro e inocente, encaro como sofrimento desnecessário para a idade. Pois quando se tem 6 anos, dificilmente alguém tem a sorte de gostar de alguém da mesma forma e intensidade, principalmente dentro de uma cultura onde meninos e meninas são educados de formas tão diferentes. 
A minha fala aqui em casa é "Criança não namora." Vejo isso também como prevenção contra pedófilos que muitas vezes seduzem se dizendo namorados apaixonados.
Por fim o que posso dizer é que é preciso ter tempo para ouvir o que suas crianças têm a dizer. É preciso atenção para o que se passa na vidinha deles. Pois o que parece bobagem para um adulto, pode ser a coisa mais importante que está acontecendo com eles no momento. E a forma como eles lidarão, poderá ser determinante para decisões futuras, quando a coisa for realmente "pra valer".

Cristine Cabral

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Boa Mãe...



Conversando com algumas amigas recentemente falei para uma delas: "Mas eu não sou uma mãe boa". Ela estranhou, claro! Como poderia dizer isso de mim mesma? Tentei explicar da mesma forma que tentarei fazer aqui.
Na realidade sou uma boa mãe, sei disso. Mas, não sou uma mãe boa. E isso me é dito por pessoas diferentes (amigos, marido pediatra, professora, tia, etc.) de diversas formas, às vezes em tom de brincadeira, às vezes em tom de ironia, às vezes sério....Mas, então que tipo de mãe eu sou?...
Eu sou uma mãe que ensinou desde o primeiro dia o filho a dormir sozinho no quarto dele. Sou uma mãe que não pegou no colo o filho imediatamente- nem da primeira vez que ele chorou na maternidade,  nem até o momento. Sempre, espero para reconhecer que tipo de choro é, e se for de manha... realmente “des-sensibilizo” ele, ou seja, não o pego no colo, e aguardo até ele parar para lhe dar atenção ou colocar no colo.
Sou uma mãe que ensinou o filho a dormir sozinho no berço e não no colo. E posso dizer que apesar de ser muito bom. Vez ou outra- quando não estamos em casa e com seu berço ou cama a disposição- fico pensando que teria sido útil nesses momentos tê-lo ensinado a dormir também no colo de mãe ou pai...Mas, depois penso que fiz realmente o melhor.
Eu sou uma mãe que tirou a mamadeira do filho e o deixou com o copo de transição para tomar leite, quando ele tinha um ano e três meses. Suco e água ele já tomava no copo há tempos que nem lembro....
Eu sou uma mãe que pouquíssimas vezes- não chega a completar os dedos de uma mão- levou o filho para o próprio quarto e o fez dormir com ela e o marido. Talvez, pelo fato de que apesar do aconchego de pai e de mãe, tanto ele quanto nós dormimos melhor cada um em seu quarto- afinal foi assim que acostumamos desde o primeiro dia- e talvez por ele ter a certeza de que em muitos outros momentos podemos ficar aconchegados que não aquele...
Eu sou uma mãe que não corre para segurar o filho quando ele cai, espera primeiro para ver qual vai ser a reação dele.
Eu sou uma mãe que deixa o filho no berço sozinho, brincando, e vai tomar um banho tranquilo, pois sei que ele estará seguro ainda que sozinho.
Eu sou uma mãe que nunca deu a comida muito “mastigada para o filho”. Lembro da minha mãe ver meu filho comer banana aos pedaços e ficar horrorizada, afirmando com veemência que eu teria que amassar se não ele iria engasgar....Não adiantou eu explicar que ele foi aprendendo a mastigar desde que iniciou a alimentação complementar e que não iria engasgar pois sabia mastigar....Recebi um baita discurso e depois mais uma vez a frase “Você é uma mãe ruim”.
Enfim, o que quero dizer é que realmente desde que meu filho nasceu incentivo ao máximo sua independência e autonomia, porque sei como profissional, como ser humano e hoje também como mãe que isso é o melhor para ele. É claro, que não é fácil. É claro que ouço muitas críticas e também recebo muitos olhares admirados como se nem eu nem meu filho fôssemos desse planeta.  E sim, às vezes, tenho em mim o desejo que ele fosse mais dependente um pouco, me pedisse mais colo...Mas, depois esse meu desejo passa....Principalmente quando o vejo ganhando mais autonomia e confiança. E, principalmente, percebendo que ele está sabendo discernir que para o mais importante, para o que mais precisar, sempre terá  o meu colo.
Então, já estou quase acostumada com a frase “Você não é uma boa mãe”. E, em certa medida, a aceito, pois realmente sou uma mãe mais dura, mais firme, uma mãe que é capaz de ouvir o filho chorar por quase 10 minutos e esperar do outro lado do porta, com o coração na mão, para ver se ele consegue se acalmar sozinho.... o que talvez não me qualifique como uma mãe boa...Mas, tenho certeza de que sou uma boa mãe. Afinal, todas nós somos as melhores mães que nossos filhos poderiam ter, sejamos mães boas (mais sensíveis, ou apegadas ou seja como for) ou mais duras e firmes....Somos boas mães.
Não existe um único tipo de maternidade, nem um único tipo de criança. Contudo, você e eu somos as melhores mães que nossos filhos podem ter, pois somos suas mães.Por isso, posso dizer que não sou uma mãe boa, mas sim sou uma boa mãe.

Vanessa Nascimento

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Amoras Amassadas


Essa historinha ouvi há muito tempo, não lembro onde, nem quem me contou. Mas me acompanha sempre, principalmente nos atendimentos infantis. Mais ainda quando o motivo da queixa provem do comportamento dos pais.

"Era uma vez, uma mulher que criava cinco filhos sozinha. Eram muito pobres e moravam em uma localidade rural afastada do movimento da cidade.

A única distração que ela e as crianças tinham era no final da tarde irem colher amoras selvagens que cresciam por perto do terreno onde moravam. 

Cada um colhia o que podia e quando chegava em casa a mãe juntava todas as frutas e dividia igualmente para todos. Deixava as melhores para as crianças e ficava sempre com todas as amoras amassadas.

Certo dia a mãe ficou doente e não pôde ir para a colheita, mas as crianças foram, fizeram a colheita e dividiram tal qual a mãe fazia todos os dias, deixando para a mãe doente todas as amoras amassadas"

Há quem possa dizer que as crianças foram insensíveis por não darem à mãe doente as melhores frutas. A questão é que a mãe nunca explicou o por quê de ela sempre ficar com as amassadas. As crianças só fizeram o que cresceram vendo a mãe fazer.

Sempre que vejo uma mãe levando a mochila do filho, em pé no ônibus enquanto a criança vai sentada, deixando de comer no lugar que ela gosta para comer no lugar onde tem (ou dá de brinde) brinquedos lembro dessa história e me pergunto: será que ela sabe que está "comendo amoras amassadas"? 

Não tem nada de errado em querer dar o melhor para os filhos e ficar com a parte menos "doce". Desde que se deixe claro o por quê de estar fazendo isso. Qual a mensagem que se quer ensinar às crianças. Porque você pode achar que está ensinando "Podemos abrir mão de algumas coisas pelas pessoas que amamos", mas a criança pode está entendendo "Você é mais importante do que eu." O que não deixa de ser... aos olhos de muitas mães os filhos são mesmo mais importantes, mas o que não é educativo é a criança crescer achando que todos que estão à sua volta estão ali para servi-la. O mundo não irá tratar seu filho como a pessoa mais importante do recinto.

E você anda comendo somente as frutas amassadas? 

domingo, 10 de maio de 2015

As Relações Familiares e a Formação do Sujeito Emocional

Atualmente estou fazendo a pós-graduação em Psicopedagogia. E esta semana precisei redigir um texto como uma das avaliações de disciplina.

Achei o assunto tão relevante que resolvi compartilhar com vocês o texto enviado:

Aluna: Cristine Costa Cabral
Atividade Avaliativa 1
Módulo: Família: Relações, Vínculos e Aprendizagem

As Relações Familiares e a Formação do Sujeito Emocional

Este módulo trata da importância da família como base estrutural para as demais relações sociais, emocionais e de aprendizagem que acompanharão o sujeito ao longo de sua vida, nas demais instituições fora da família, como escola, trabalho, etc. Estudou-se as questões das particularidades que envolve cada família, tendo hoje em dia não mais a família nuclear patriarcal como único modelo. E como esta, no papel de primeira ensinante, é fator implicador do desenvolvimento da aprendizagem na escola.
“Criança não faz o que a gente diz, criança faz o que a gente faz.” Esta frase é uma constante nos meus diálogos. Seja numa roda de amigos (que sejam ou não pais), seja em atendimento clínico, seja em palestras ou cursos. Foi a forma mais sintética que encontrei para ressaltar a importância que os pais (e demais adultos que convivem com as crianças) têm na educação e desenvolvimento infantil.
Essa questão vai desde as questões mais simples como incentivar a criança a comer de forma mais saudável, o que se torna praticamente inviável quando os pais não possuem hábitos alimentares adequados. Até as questões mais básicas da educação social, como o uso das “palavrinhas mágicas”. Como uma criança aprenderá a pedir por favor, se em casa ninguém pede nada usando esta palavra, seja de mãe pra filho, seja de pai para mãe?
A escola sofre com a falta de educação básica. O que antes as crianças aprendiam em casa (regras de comportamento social, regras de etiqueta básica, etc.), hoje em dia esta demanda está sendo destinada à escola. As causas deste evento são tão diversificadas quanto os modelos de família da atualidade. Seja por que, nos primeiros anos de vida, a criança ficou aos cuidados de uma babá que praticamente não falava com a criança, deixando-a a maior parte do tempo em frente à televisão, seja por que a mesma ficou sob os cuidados de avós condescendentes, que ao menor gemido da criança já corriam para prover qualquer coisa que esta pudesse vir a desejar.
Este tipo de educação já vem sendo denominada por alguns estudiosos como “Crianças Terceirizadas”. Ou seja, com a enorme demanda de tempo destinado ao trabalho, os pais cada vez mais estão menos tempo presentes e vêm terceirizando a educação, contratando babás, professores particulares, psicólogos, escola de tempo integral, cursos de línguas, escolinhas de esporte, etc. E o mais básico da estrutura humana está sendo colocado em segundo plano: o afeto, a atenção, o carinho, a dedicação, a educação de valores, a imposição de limites...
Como conclusão o que posso colocar é que a parceria entre a escola e a família é essencial. Ambas têm papel fundamental na formação do cidadão, porém se esta não oferece modelos adequados de comportamento, de valores, de limites, pouco aquela pode fazer.
A curto prazo o problema não parece ser tão grave... alguns dias de suspensão, ou mudar constantemente de escola, ou colocar numa escola pública como punição ou como uma forma dos pais dissessem “lavo minhas mãos, não gastarei mais meu dinheiro com a sua educação, se você não quer ser educado”. Porém a médio e longo prazo as consequências são gravíssimas: mais e mais professores sendo agredidos (verbal e fisicamente) e adoecidos, incapacidade dos jovens de gerar vínculos sociais adequados e consequentemente mais sofrimento emocional, mais agressividade, mais depressão, risco social do desenvolvimento de conflitos com a lei, visto que se a autoridade dos pais e professores não é reconhecida, existe a probabilidade de que a autoridade legal e jurídica também não seja, dentre outras consequências de maior ou menor gravidade.

A educação de cada criança não é uma questão só da família, ou só da escola, é uma questão de todos, é uma questão social. Quando estivermos na terceira idade, é nas mãos destas crianças que nós e toda a sociedade estaremos.

Deixem nos comentários que nota dariam heheheh. Vamos ver se os meus professores concordam com vocês.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O Choro

Estivemos off line devido a algumas questões pessoais, além do mês de férias ser complicado para nos dedicarmos às atividades extras.

Mas estamos de volta e hoje responderei a uma dúvida que recebemos de uma de nossas leitoras:

"Boa tarde novamente peço um matéria sobre como educar uma criança de 1ano de 10 meses que 
 chora muito para conseguir o que quer? Como fazê-lo gostar de ler?...na realidade são duas sugestões."

Bom, esta questão do choro é bem polêmica, pois muitas pessoas acham desumano deixar um bebê chorando sem receber atenção. Mas vamos analisar por partes...
 
Primeiro,  é necessário que a mãe aprenda a diferenciar cada tipo de choro, tem o de tristeza, de medo, de raiva, o de birra... este último é o que deve ser ignorado. Os demais devem receber atenção, cuidado e orientação. Exemplo: a criança está brincando com seu brinquedo preferido que por algum motivo é quebrado. Natural que o choro venha e neste caso que seja de tristeza, pois é uma perda. O que não deixa de ser uma experiência importante, pois nossas vidas são cheias de perdas e quanto antes estamos preparados para lidar com as mais variadas possibilidades, mais fácil (ou pelo menos, menos difícil) a pessoa se recompor. Isto se chama resiliência, termo muito usado hoje em dia nas empresas quando traçam perfis de profissionais desejados.

Depois de identificado o tipo de choro e a razão do mesmo cabe a explicação e orientação de como a criança deve se comportar. É muito importante aprender a nomear o que se sente... o grande problema é que a maioria dos adultos não sabem nomear nem o que eles mesmos sentem e usam palavras genéricas, por exemplo quando a pessoa diz que está nervosa pode ser que esteja com raiva, ou cansada física e/ou emocionalmente, ou ansiosa, ou com medo... Complicado não é?! No post Olhando para dentro fala um pouco mais sobre o assunto.

Importante: não subestime! Já escrevi sobre esta questão em abril no post Não subestime. Acredite que seu filho é capaz de compreender o que você diz. Desde que tenha a postura adequada. Fique da altura da criança, olhe nos olhos, segure suas mãos para que ela tenha toda a concentração no que você está dizendo. As palavras devem ser simples e as frases curtas. "Você não pode fazer isso.", "Você está triste por que seu brinquedo quebrou. Vou te dar colo, abraço e beijos que ajuda a passar.", "Você pode sim ficar não raiva, mas não pode quebrar nada, nem bater por isso." 

E chegamos ao o choro de birra, que é o choro manipulador. Uma criança pequena, princialmente as que ainda não falam só tem como recurso o choro e aprendem como usá-lo e mais importante com quem usá-lo. Este é o que deve ser ignorado. Dá muito trabalho e exige força de vontade. Mas uma vez iniciado o processo para extinguir esse tipo de manipulação é importante manter-se firme, pois se acabar cedendo o efeito vai ser contrário. A criança vai chorar mais forte e por mais tempo. É como se estivesse dizendo "Chorar por dez minutos não resolve mais, tem que chorar agora é por meia hora."

Este processo é muito complicado e se torna mais difícil quando há diferenças de opiniões entre os adultos, pois aparecem os boicotes, as desautorizações e as críticas, muitas vezes na frente da criança que vai saber exatamente para que colo correr quando quiser obter o que deseja. Importante o diálogo entre os adultos envolvidos sejam pais, avós, padrastos, tios, etc. No post Ouwnnn... o bichinho tem alguns argumentos para aquelas mães que lidam com "adversários" dentro de casa.

Resumindo o choro de birra deve ser ignorado, até que a criança aprenda a forma adequada de conseguir o que quer. Importante dar atenção e o devido reconhecimento quando a criança se comportar bem, pedir por favor. 

Educação Emocional exige muito, muitas vezes o coração de mãe fica estraçalhado de ver seu filho triste, ou com saudades. Mas o resultado é para toda a vida e para todos os tipos de interação social. 

O choro que JAMAIS deve ser ignorado é o de medo. Todas as crianças, independente da idade, precisam se sentirem seguras. Os medos devem sim ser enfrentados, mas não de qualquer jeito, sem um cuidado especial.

Cristine Cabral

P.S. Não esqueci da questão sobre a leitura, na próxima semana falarei só sobre isto.




terça-feira, 30 de abril de 2013

Não subestime



No facebook frequento alguns grupos de mães. São espaços onde dúvidas, experiências, medos são compartilhados e retirei dois posts de um deles (com autorização das autoras, desde que resguardado sigilo) para falar sobre o tema de hoje: Educação Emocional.

"Tenho um cachorro de 15 anos que esta com cancer fase terminal, hoje ele piorou bastante estou dando um remedio mas a veterinaria falou em eutanasia (...) Minha filha tem 2 anos e 3 meses pode até parecer doideira mas ela é muito esperta, sente falta dele ate quando ele esta no banho ou no veterinario em consulta, quando perdemos nossa gatinha ela teve febre, acordava a noite chamando-a, até que ganhou outra gatinha, e melhorou na hora, tenho medo dela ficar ruim sabe, como posso falar com ela sobre isso? Me ajuda, minha filha não vai perguntar 1 vez por ele e depois esquecer, e mesmo eu distraindo ela volta no assunto pq com a gatinha foi assim."


"Tenho um bb de 2 ano 3 meses q não frequenta escola. Desde q engravidei virei mãe 24 horas. Meu filho é hiper,super mega grudado em mim. Resolvi q preciso trabalhar para colocar um projetos engavetados em prática, ajudar em casa, enfim melhorar de vida! Meu plano inicial é trabalhar das 16h as 3 da manhã, já q tenho "facilidade" d ficar acordada até tarde e acordar cedo. Assim tbm na parte da manhã ficaria com meu filho. Não penso em colocar ele na escola no momento. Então minha mãe ficaria com meu filho em casa das 16h as 19h (hora q meu esposo chega do serviço). Assim ele teria sempre a presença materna ou paterna por perto. Meu marido é super pai cuida bem do nosso filho. Ele q dá mamadeira, banho e coloca para dormir todos os dias. Mas a minha preocupação é: bom vou ser sincera não estou preparada para deixar meu filho essa é a real. Mas fico pensando se não for agora q tenho essa oportunidade será quando??? (...) como preparar meu filho para minha ausencia? Já conversei com ele:"M... a mamãe pode sair para trabalhar?" Ele: "não, fico triste!" Nem preciso falar q "mata" meu coração! (...) Sei q no começo vai ser um pouco complicado... mas como não ser tão desgastante para ambos? (...) To sofrendo com uma coisa q no futuro sei q será banal, mas agora esta doendo."

As duas dúvidas são bem comuns e os assuntos são bem delicados: morte e volta ao trabalho.

Minha intensão aqui não é responder e sim dar exemplos, pois as respostas dadas a estas mães foram específicas para elas e não são receita, pois cada caso é um caso. Mas resolvi tomar como exemplo. 

Precisamos antes, entendermos um pouco sobre o desenvolvimento de uma criança de 2 anos de idade.

Aos 2 anos a criança já tem grande capacidade de entendimento da comunicação oral. Excerto questões mais abstratas, ou muito fora da realidade dela. Mesmo que a criança não fale muito, ela já entende quase tudo. Vamos lembrar que por volta dos 6 meses se brinca de "Cadê o bebê?", então essa brincadeira já demonstra que é capaz de entender que o bebê é ele, que ele é capaz de se esconder, que o seu comportamento tem influência direta no comportamento dos adultos. Se com 1 ano já é capaz de organizar frases simples como "Quero água.", consegue reconhecer e nomear uma infinidade de parentes, brinquedos e personagens, consegue acompanhar e se divertir com histórias curtas, aos 2 anos é absolutamente capaz de perceber as alterações na rotina, no comportamento dos adultos. A criança percebe, mas não entende. Cabe aos adultos explicarem o que está acontecendo.

Assim não é de se admirar que a filha da 1ª mãe tenha percebido a ausência do cachorro e queira saber o que aconteceu. E quanto mais sincera for a conversa, mais a criança vai aprender para lidar com situações futuras. A morte faz parte da vida. A plantinha nasce e morre, assim como os bichinhos e as pessoas. 

No caso da 2ª mãe, o comportamento da criança provavelmente é um reflexo da insegurança da mãe com relação à volta ao trabalho. Ela mesma reconheceu quando disse: "bom vou ser sincera não estou preparada para deixar meu filho essa é a real." E este sentimento não é exclusividade dela. Todas passam por isso. Seja aos 4 ou 6 meses de idade, como a maioria, ou aos 2 anos. A dificuldade se torna maior, pois como mais tempo se passou mais difícil é mudar o comportamento. Mas difícil não quer dizer impossível. E quanto mais tempo passar, mais difícil será... para os dois, filho e mãe. Aos 5 anos por exemplo a criança pode até ser capaz de simular doenças, ou fazer chantagem emocional, fora as birras de praxe para manter a mãe por perto.

O que os dois depoimentos têm em comum, além da idade das crianças é o fato de que as mães estavam projetando os próprios sentimentos para as crianças. Imaginando que eles sentiriam exatamente o que elas estavam sentindo. E que não seriam capazes de lidar com estes sentimentos. 


Não subestime seu filho. As crianças são capazes de grandes feitos, desde que os adultos consigam dar oportunidade e suporte. Por que também não é só jogar a notícia. "O cachorro morreu e não volta mais." ou "Vou voltar a trabalhar e ponto final". É necessário que a situação seja explicada numa linguagem simples. E que os adultos estejam preparados para dar o suporte necessário, seja o luto pelo bichinho, ou a adaptação à nova rotina.

Sentimentos difíceis fazem parte da vida e quanto mais cedo aprendemos a lidar com eles mais fácil será lidar com as perdas e dificuldades futuras, provavelmente, bem maiores que estas.

Cristine Cabral

Para ler mais sobre o assunto, sugiro o post "Ouwnnn... o 'bichinho'..."


terça-feira, 2 de abril de 2013

O fantasma dos pais biológicos

Mais um sobre adoção, complementando os meus dois últimos posts: "Filho do Coração" e "Contar ou não contar?"

Uma das questões mais delicadas quando o assunto é adoção é essa relação (ou ausência dela) com os pais biológicos. Muitos pais de crianças adotadas têm medo de qualquer aproximação, ou mesmo ciúmes. Realmente é uma situação imprevisível, pois cada caso é um caso. Se lidar com as emoções de uma pessoa é complicada, imagine lidar com as emoções de, no mínimo, três pessoas (mãe adotiva, mãe biológica e criança).

Mas como mãe e como psicóloga penso primeiro na criança, por ser a pessoa mais indefesa, a com menos capacidade cognitiva (pelo menos teoricamente) e emocional para lidar com uma situação delicada. 

Se os sentimentos, desejos e pensamentos dos filhos devem ser ponto de partida para análise de diversas situações, neste caso isto também se aplica.

Os sentimentos de uma criança adotada com relação aos pais biológicos podem ser das mais diversas, dependendo de como recebeu a notícia, de quem contou, de sua própria história. Pode ser que sinta:

- Raiva, ressentimento, mágoa, por ter sido abandonado.
- Agradecimento, por reconhecer que não pertencer àquela família (sendo por vontade da própria mãe ou da justiça) seria a melhor coisa para ele mesmo. Reconhecer que um lar adotivo harmonioso é melhor que qualquer lar biológico disfuncional.
- Indiferença, são pessoas estranhas como tantas outras no mundo. Apenas doadores genéticos.
- Curiosidade, do tipo: Quem são? Que fazem? Será que tenho irmãos?

Descobrir como uma criança se sente só é possível com muita aproximação, conversas sinceras, disposição por parte do adulto de perceber e aceitar o que é sentido. Para então dar sentido a tudo e planejar o que e como deve ser feito. 

Um "erro" comum a muitos pais é imaginar e conceber o que é melhor para seu filho, sem consultá-lo. Tudo bem quando a criança ainda é muito pequena e não tem conhecimento do mundo real, mas a partir do momento que a criança já entende o que significa ser adotado, deve receber uma atenção especial quanto a este assunto. 

E como vou saber se já tem condições de perceber o mundo real? Pelas perguntas. A partir das perguntas que todas as crianças fazem é que as verdades surgir.

Um dia a minha filha me perguntou: "Mamãe, por que eu sou sua filha?" Logo veio a resposta mais óbvia: "por que você saiu da minha barriga." Mas como não gosto de responder sem pensar, principalmente para ela, respondi que ela era minha filha por que a amo muito e por isso que é meu dever cuidar dela. Respondi isso, por que considero muito a possibilidade de um dia vir a adotar e queria dar a ela uma resposta que pudesse servir também para um possível irmão ou irmã. Em outras palavras, comecei a gestar um filho que pode ou não "nascer", mas se vier, meu mundo e o da "irmã" dele já está começando a ser preparado para isso. Se não considerasse a possibilidade, a resposta óbvia seria satisfatória, pois não haveria diferenças entre irmãos.

Alguém deve estar pensando, que exagero. Ela nem vai lembrar que um dia perguntou isso... 

Não. Realmente não vai. Mas a forma como ela se sentiu e o que ela pensou na hora são um alicerce para qualquer coisa que venha posteriormente e que diga respeito a este assunto (nascimento, irmãos, adoção, etc) O alicerce ninguém vê, mas é ele que dá sustentação.

Agora um detalhe importante: crianças só fazem perguntas difíceis a quem está disponível para elas. Quem tem tempo para elas. E se perceber segurança, sentir que não vai ser punido, ou punidor. Pois se ela perceber que toda vez que ela toca no assunto os adultos ficam desconfortáveis, tristes, ou com raiva provavelmente irá se fechar e tentar "resolver" tudo sozinha.

Por isso deixo a dica: se você for mãe adotiva e não sabe como lidar com esse assunto, primeiro procure ajuda para você mesma. Só depois que todos os seus conflitos pessoais estiverem resolvidos é que poderá ajudar seu filho a lidar com o assunto. 

Um filho adotivo não "pertence" à mãe biológica, nem à adotiva. Assim como qualquer criança ele pertence a ele mesmo.

"Nossos filhos não são nossos. Eles são filhos da vida ansiando pela vida." F. Nietzsche

Cristine Cabral

terça-feira, 12 de março de 2013

Olhando para dentro


Eu trabalho com a abordagem Análise do Comportamento, que tem uma visão focal e tem base pragmática. O que leva a algumas pessoas de outras áreas a dizer que é uma abordagem fria e que não leva em consideração os sentimentos. O que não é verdade. Tanto não é que em algumas questões começamos pela identificação do que é que é sentido pela pessoa. Muitas vezes o trabalho começa por aí.


E você sabe o que sente?

Você consegue saber a diferença entre saudade, solidão, melancolia, angústia e tristeza? Muita gente denomina tudo isso, ou uma parte disso, de depressão. Caso o profissional não tenha a devida atenção de detalhar o que seja exatamente o que a pessoa sente, esta pode sair com uma receita de um anti-depressivo. 

Pode ser que na verdade o que a pessoa está sentindo é uma saudade de uma realidade que se foi e que trazia sentimentos maravilhosos e que não estão mais presentes. É uma tristeza pelo que se foi, mas que não impede da pessoa reconhecer as coisas boas do presente, só precisa focar.

Claro que existem os casos reais de depressão e que precisam sim de medicação. O que chamo atenção é para um diagnóstico feito às pressas. Ou as vezes quem tem pressa é o cliente. Quer só um remédio que o ajude a dormir (ou acordar, ou para as duas coisas) para que continue sua rotina no "automático", que não tenha que "perder tempo" cuidando "dessas coisas".

A saudade em si, não necessariamente é algo ruim. Já cantava Luiz Gonzaga: 

"Se a gente lembra só por lembrar
O amor que a gente um dia perdeu
Saudade inté que assim é bom
Pro cabra se convencer
Que é feliz sem saber
Pois não sofreu"


Precisamos reconhecer o que sentimos para que possamos avaliar melhor o que provoca tais sentimentos e qual a melhor forma de agir em cada situação. Principalmente nas situações que trazem sentimentos desagradáveis que são bem mais marcantes. Biologicamente registramos com muito mais facilidade as situações ruins do que as boas.


Imagine que você diariamente, por anos e anos, passou por uma rua florida, cheirosa, com pessoas simpáticas, sempre com música alegre tocando. Só de lembrar (ou mesmo imaginar) isso trás uma sensação de bem estar. Agora o que aconteceria se você for assaltada? E se o assaltante tenha sido extremamente violento e ameaçador? Na próxima vez que chegar na esquina da dia rua, antes mesmo de visualizar qualquer coisa, que sensação virá?


Então, bastou um episódio desagradável para "apagar" inúmeros deles agradáveis.

E as vezes acontece do sentimento voltar de uma forma que numa visão superficial parece inexplicável. Digamos que no seu trabalho tenha as mesmas plantas que a rua em que foi assaltada e assim que chega ao trabalho volta a sensação de insegurança, angústia e medo. Seu vizinho sempre toca a mesma música que ouvia quando passava por aquela rua. Se esses sentimentos e emoções vierem de uma forma muito intensa, pode achar que está com uma Síndrome do Pânico, pois após o assalto vive sentindo medo em lugares que normalmente eram seguros e agradáveis, quando na verdade é um caso de Estresse pós-traumático.

E dá pra voltar a se sentir bem de novo na tal rua? Dá sim. Mas para isso tem que voltar a passar lá diariamente. Porém o que a maioria das pessoas faz é passar a evitar o que trás a sensação ruim e abre mão de tudo o que foi bom ali. 

O que descrevi aqui foi só uma ilustração, no dia a dia as coisas não são tão simples assim. Principalmente para as mulheres que ainda estão submetidas às variações hormonais. As vezes a "depressão" é só TPM, ou a sensação de melancolia e angústia é carência no período de ovulação. Por isso a importância de "olhar para dentro". 

Sabendo o que é e de onde vem fica mais fácil saber o que fazer e qual a melhor forma de fazer. E sabendo isso podemos também ensinar nossos filhos. Está nas nossas mãos criar uma geração mais equilibrada emocionalmente.

"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós."  Jean-Paul Sartre

Cristine Cabral

terça-feira, 5 de março de 2013

O melhor estímulo

No último post assinado por mim O "mais, o "melhor", o "primeiro" comentei sobre a preocupação das mães em estarem estimulando as crianças desde os primeiros dias de vida. Para quem leu com pressa, ou sem a devida atenção pode ter parecido que sou contra a estimulação infantil. Por isso resolvi voltar ao assunto hoje.

Quero chamar a atenção não é para a estimulação em si e sim para o excesso desta. E que isso pode ser mais prejudicial do que saudável à criança. No caso de uma infância vivida sob a pressão da busca de resultados, com agenda cheia de atividades e com pouco tempo para lazer. Ou seja, a vida de um "mini-adulto".

Sem falar que se perde o prazer das descobertas, pois constantemente estimuladas os aprendizados naturais de cada fase passam despercebidos, pois estes já foram "adiantados" na fase anterior. 

Lembrei agora do desenho animado que mais gosto: Sid, o Cientista. Para quem não conhece o personagem toda manhã ele faz uma "descoberta" e a partir dela aprende "tudo" sobre aquela coisa. Faz tempo que fiz a faculdade de Letras, mas lembro vagamente sobre o Construtivismo um método de ensino que apreende a educação tendo como ponto de partida as experiências e conhecimentos já adquiridos pela criança. (Caso alguma pedagoga leia e queira colaborar deixando algo mais sobre o assunto nos comentário, só podemos agradecer)

Tem coisa mais linda que um bebê de poucos meses descobrindo as mãozinhas? Quem tem um em casa, observe a forma atenta como olha para cada dedinho. Quem já teve, espero que tenha tido a oportunidade de observar e lembrar. E esta beleza pode ser repetida e testemunhada em cada nova descoberta. O poder de ficar em pé, de conseguir andar, de saber-se capaz de subir e descer, a mágica de poder colorir com tinta ou giz de cera... nem que sejam as paredes.

Então, na minha humilde opinião, o melhor estímulo é a presença de alguém que seja importante para a criança. Para estimular a linguagem nada melhor do que ter alguém que fale com a criança. Tv, dvd´s educativos, brinquedos interativos que falam (muitas vezes em português, inglês e espanhol) estimulam sim a aquisição da linguagem, mas não ensinam a interagir com outras pessoas, não expressam sentimentos, não nomeiam para a criança o que ela está fazendo ou o que ela está sentindo.

Mais uma vez voltando aos meus tempos de psicóloga de empresa. Muitas vezes cheguei a entrevistar pessoas com currículo escolar impecável, mas sem nenhuma habilidade social. Não sabiam lidar com ansiedade, pressão ou frustração que poderiam reagir das mais diversas formas, desde uma explosão emocional no meio do ambiente de trabalho, ou mesmo a necessidade de ter um afastamento do trabalho por estresse ou depressão. Nenhuma das alternativas é interessante nem para a empresa, muito menos para a pessoa.

Então antes de estimular seus filhos a serem excelentes alunos, grandes profissionais, estimule-os a serem BOA GENTE. Pois é isso que eles (e todo mundo) são antes de ter qualquer papel na sociedade. Somos todos pessoas. 

Em outras palavras, estimule a se comunicar adequadamente, a compartilhar, ensine o nome dos sentimentos e como lidar adequadamente com cada um, principalmente com os desagradáveis. Não raro quando frustrada, minha filha quer jogar as coisas no chão, mas quando isso acontece digo a ela: "Você pode ficar com raiva, não tem problema, mas não pode se comportar mal por isso."

Agora tem um detalhe importante: só podemos ensinar o que sabemos. Caso você tenha dificuldades nos seus relacionamentos, não sabe lidar corretamente com seus sentimentos, quanto mais cedo procurar ajuda melhor. Não uma ou duas vezes aconteceu de uma criança chegar à clínica com queixa de não respeitar autoridades, de responder agressivamente às pessoas, de não gostar de ser contrariado, etc. E no desenrolar da terapia, com algumas entrevistas com os pais chegamos a conclusão de que a criança está apenas copiando um dos modelos que já tem em casa. Alguns pais reconhecem e partem a procura de ajuda, outros simplesmente não dizem nada, mas "desaparecem" da terapia, outros continuam insistindo que querem que a criança mude, mas que eles não tenham que mudar. 

O que você gostaria que seu filho falasse para você? Que ele a ama, que você é importante para ele? Então seja você o modelo. Diga para ele o que sente. Lembre-se criança não faz o que a gente diz. Faz o que a gente FAZ! Se você quer a companhia dele na sua velhice, crie e fortaleça o vínculo hoje, dê a sua companhia a ele hoje.

"Dê a quem você ama: asas para voar, raízes para voltar e motivos para ficar." Dalai Lama


Cristine Cabral


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O "mais", o "melhor", o "primeiro"

Na época em que trabalhava na área organizacional e fazia muitas entrevistas para empregos ou estágio era praxe a pergunta: "Qual característica sua, você acha que precisa melhorar?" Nunca fiz nenhuma estatística, mas a impressão era que cerca de 90% respondiam: "A ansiedade. Sou uma pessoa ansiosa. Quero que as coisas aconteçam o mais rápido possível. Não gosto de esperar" Isso por si só não eliminava, nem aprovava os candidatos, dependeria muito do perfil solicitado para a vaga. Mas me perguntava: "Será uma 'epidemia' de ansiedade?"

Ano passado li o livro Modernidade Líquida de Zygmunt Bauman e algumas citações me levaram a reflexão sobre o nosso contexto social contemporâneo:
“... não se pode errar, também não pode saber se se está certo." (p. 75) 
"Os objetivos podem ser estabelecidos apenas para a presente etapa do esforço sem fim – e a satisfação de alcançar um objetivo é apenas momentânea. (…) não há tempo para descanso, e toda celebração de
sucessos momentâneos não passa de um intervalo antes de outra rodada de trabalho duro (…) A busca da aptidão é um estado permanente de auto-exame minucioso, auto-recriminação e auto-depreciação permanentes, e assim também de ansiedade contínua." ( p. 92,93)
“convive-se com a falta de garantias (de posição, títulos e sobrevivência), a incerteza (em relação à sua continuação e estabilidade futura) e a insegurança (do corpo, do eu e de suas extensões: posses, vizinhança, comunidade)” (p. 184).

Não pretendo fazer nenhuma análise social ou antropológica, mas sim, como mãe, pensar em como esta realidade pode afetar a minha filha e como psicóloga infantil como as crianças estão sendo educadas dentro deste contexto.

A ansiedade das mães quanto ao futuro dos filhos, uma ânsia em oferecer "tudo do bom e do melhor" muitas vezes não é sentida, ou percebida nem por elas mesmas, nem pelo contexto social, já que é "normal" preparar o filho para que consiga as melhores oportunidades e o quanto antes, que ele seja o "mais" competente, o "melhor" funcionário, o "primeiro" a ser promovido. Teoricamente isto lhe garantiria alguma segurança com relação ao futuro. (Teoricamente!)

Quando presencio uma reunião de mães, que não são amigas e sim apenas conhecidas, as vezes me sinto num concurso de "A Melhor Mãe da Face da Terra!" cujos critérios são o desempenho cognitivo, motor, emocional, social e etc das crianças. "Meu filho andou com 8 meses", "O meu tem 3 anos e já sabe escrever o nome", "A minha filha, é praticamente a chefe das crianças do prédio e só tem 6 anos". Até aí tudo bem, pois estando várias pessoas que tenha um único ponto em comum se falar só sobre este assunto. A "competição" que percebo é quanto aos olhares de reprovação àquela mãe que diz que não se importa do filho de 4 anos beber refrigerante, caso a maioria deles seja adepta da alimentação super-saudável, ou o olhar de "afff que exagero" àquela que diz que o filho tem 5 anos e nunca comeu nada industrializado, caso o grupo seja das adeptas das comidinhas de prateleira de supermercado. 

Essa cultura do "mais", do "melhor", do "primeiro" me preocupa sobre o quanto e como as crianças estão sendo afetadas por esse modelo de sociedade doentia, pois não é à toa que patologias como Síndrome do Pânico, Compulsão Alimentar (ou de álcool, ou de jogo, ou de compras, ou de qualquer coisa que traga sensação de prazer imediato), Transtorno Obsessivo Compulsivo, Fobias das mais diversas inclusive a Fobia Social, dentre outras mais têm sido cada vez mais diagnosticadas.

A palavra de ordem é "estimular". Mães procuram toda forma de estimular suas crianças desde os primeiros meses de vida, a mídia se favorece dessa palavra para vender jogos e brinquedos, colégios prometem além do ensino básico, os mais diversos tipos de estímulos. Não que estimular seja errado, mas, como tudo na vida, se a dose é excessiva, também se tornará prejudicial.

É lindo um bebê de 8 meses que já anda, dá orgulho ver o filho de 3 anos escrevendo o nome. Mas devemos analisar quais aspectos estão sendo estimulados, se essa corrida contra o tempo e contra os "concorrentes" não está "adultizando" cedo demais. E se a menina resolver ser a primeira dentre as amigas a beijar na boca com 10 anos, ou se o menino aparecer com alguma bebida alcoólica aos 13 anos? Se eles sempre fizeram todas as coisas mais cedo que os colegas, por que não começar logo a adolescência (com todos os seus riscos, dramas e preocupações)? Isso sem falar de como a criança se sente com relação a tantas cobranças de desempenho.

Então mãezinhas, cuidado com a dose... seja do remédio, seja do elogio, seja da disciplina... Só amor demais é que não faz mal, mas a forma como este amor é demonstrado, também deve ser moderado. Ninguém gosta de se sentir sufocado, nem mesmo as crianças.

Equilíbrio é a palavra de ordem.

Cristine Cabral

P.S. Se quiser ler mais sobre Ansiedade Infantil indico http://www.pediatriaemfoco.com.br/posts.php?cod=279&cat=8