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sexta-feira, 7 de março de 2014

Não há inteligência. Há inteligênciassssss!

Quando era criança eu nunca era incluída entre os alunos inteligentes, não me destacava nas notas, era tímida demais para me manifestar em sala e a proporção que a dificuldade foi aumentando, a timidez que me impedia de esclarecer dúvidas, fez com que meu rendimento diminuísse e eu passei a ser qualificada de aluna desinteressada, "insuficiente", que não era esforçada, etc.

Logo nos primeiros semestres do curso de Psicologia uma "crise existencial" se instalou. Muitas vezes assuntos eram debatidos longamente entre professor e alunos que não conseguiam entender, algo que eu havia entendido na primeira explicação. Porém isso não era motivo de orgulho, mas sim de insegurança, pois provavelmente eu estaria enganada e tinha entendido errado, pois (para mim mesma) não era uma aluna inteligente. Então me esforçava para tentar enxergar o meu erro. 

E para mim era ainda mais estranho quando a palavra inteligente chegava a mim como um elogio. Logo pensava: "Essa pessoa me conheceu agora, logo vai perceber que não sou tão inteligente assim."

Ainda hoje não consigo elencar este adjetivo entre as minhas qualidades. Mas sei que não sou tão "burra" quanto achava que era. Embora a palavra burra nunca tivesse sido usada, era assim que me sentia.

É comum ouvir a pergunta: "E el@ é inteligente?" No entanto a pergunta adequada seria: "Em quais inteligências el@ se destaca?"

Pois fiquem sabendo que existem NOVE tipos de inteligência.

Lógico-matemática

A capacidade de confrontar e avaliar objetos e abstrações, discernindo as suas relações e princípios subjacentes. Habilidade para raciocínio dedutivo e para solucionar problemas matemáticos. Possuem esta característica matemáticos. 

Linguística

Caracteriza-se por um domínio e gosto especial pelos idiomas e pelas palavras e por um desejo em os explorar. É predominante em poetas, escritores, e linguistas, como J.K. Rowling, T. S. Eliot, Noam Chomsky, J. R. R. Tolkien, W. H. Auden,Fernando Pessoa,Machado de Assis entre outros.

Musical

Identificável pela habilidade para compor e executar padrões musicais, executando pedaços de ouvido, em termos de ritmo e timbre, mas também escutando-os e discernindo-os. Pode estar associada a outras inteligências, como a lingüística, espacial ou corporal-cinestésica. É predominante em compositores, maestros, músicos, críticos de música como por exemplo, Ludwig van Beethoven, Leonard Bernstein, Midori, John Coltrane, Mozart, Maria Callas, Jimmy Page.

Espacial

Expressa-se pela capacidade de compreender o mundo visual com precisão, permitindo transformar, modificar percepções e recriar experiências visuais até mesmo sem estímulos físicos. É predominante em arquitetos, artistas, escultores, cartógrafos, navegadores e jogadores de xadrez, como por exemplo Michelangelo, Frank Lloyd Wright, Garry Kasparov, Louise Nevelson, Helen Frankenthaler, Oscar Niemeyer.

Corporal-cinestésica

Traduz-se na maior capacidade de controlar e orquestrar movimentos do corpo. É predominante entre atores e aqueles que praticam a dança ou os esportes, como por exemplo Cristiano Ronaldo, Marcel Marceau, Martha Graham, Michael Jordan, Pelé, Eusébio, Messi.

Intrapessoal

Expressa na capacidade de se conhecer, estando mais desenvolvida em escritores, psicoterapeutas e conselheiros, como por exemplo, Sigmund Freud.

Interpessoal

Expressa pela habilidade de entender as intenções, motivações e desejos dos outros. Encontra-se mais desenvolvida em políticos, religiosos e professores, como por exemplo o Mahatma Gandhi e Adolf Hitler .

Naturalista

Traduz-se na sensibilidade para compreender e organizar os objetos, fenômenos e padrões da natureza, como reconhecer e classificar plantas, animais, minerais, incluindo rochas e gramíneas e toda a variedade de fauna, flora, meio-ambiente e seus componentes. É característica de biólogos, geólogos mateiros, por exemplo. São exemplos deste tipo de inteligência Charles Darwin,Rachel Carson, John James Audubon, Thomas Henry Huxley.

Existencial

Investigada no terreno ainda do "possível", carece de maiores evidências. Abrange a capacidade de refletir e ponderar sobre questões fundamentais da existência. Seria característica de líderes espirituais e de pensadores filosóficos como por exemplo Jean-Paul Sartre, Søren A. Kierkegaard, Frida Kahlo, Alvin Ailey, Margaret Mead, Bento XVI e o Dalai Lama.

(fonte: wikipedia)
Ou seja, eu era uma criança que possuía mais desenvoltura nas inteligências Intrapessoal, brincava sozinha a maior parte do tempo, mas isso não me incomodava. Era tímida demais para fazer amizades. Corporal-sinestésica no que diz respeito a dança, basta olhar que aprendo muita coisa e ainda hoje se me esforçar um pouco consigo, ou se tiver um bom professor, sou capaz de "encarar" qualquer ritmo. O engraçado é que não era tímida para apresentações de dança, desde que não tivesse que falar, não me importava. E principalmente a Linguística, nunca precisei estudar para as provas de português, redação (como era chamada na época) era minha aula preferida, muitos recreios eram na biblioteca, ou na sala de aula, lendo.
E ainda temos a Inteligência Emocional, mas esta é assunto para um outro post exclusivo.
Para concluir só deixo aqui o recado para que as mães (e os pais) conheçam seus filhos. Cuidem da auto-estima deles, cada um é capaz de alcançar um grande sucesso, porém será o sucesso DELE. É o que a própria criança sonha e tem capacidade e talento para alcançar.
É comum a frase: Respeite pai e mãe! Mas pai e mãe também devem respeito à individualidade de cada um de seus filhos.
Para continuar lendo sobre o assunto indico outros posts:

Cristine Cabral

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Amor à leitura

Como prometido na semana passada, no post O Choro, hoje responderei a segunda pergunta da nossa leitora quanto a desenvolver o interesse pela leitura. 


Particularmente, tenho verdadeira paixão pelos livros. É o que me dá mais prazer, desde a compra, seja na loja física, ou virtual, seja na apreciação da capa, a textura do papel, o cheiro de livro novo (ou velho), e até mesmo as novas tecnologias que permitem levar mais livros com menos esforço. Reler, a mesma história em outro momento da vida... tudo é muito bom!!!

No meu caso, este amor veio do fato de eu ter sido uma criança extremamente tímida. Não sabia fazer amigos na escola, não convivia com primos, não morava em prédio, não podia brincar na rua, não me interessava pelas brincadeiras dos meus irmãos (meninos e mais novos). Mas minha infância não foi triste por isso... tinha minhas bonecas (das quais não consigo me desfazer até hoje em dia) e os livros. Meus recreios eram na biblioteca, antes dos 12 anos já havia lido (alguns mais de uma vez) clássicos da literatura como "Os três mosqueteiros", "Dom Quixote", "Robson Crusoé", etc.
Pequena biblioteca da minha pequena

Por que é interessante, mais que isso, é importante o gosto pela leitura? 
  • Desenvolve a criatividade
  • Aumenta o vocabulário
  • Facilita a compreensão de textos 
  • É um lazer de ótima qualidade
  • É barato (algumas pessoas podem questionar o "barato", mas comparo valor gasto em um livro com o valor pago por alguns minutos em um "play" de shopping, ou uma sessão de cinema (o que também é muito bom, mas só dura 2 horas). A duração e o benefício do livro é superior.
  • É seguro. Não corre o risco de machucar, nem precisa sair de casa...
São infinitas as vantagens.

Mas COMO fazer isso? 

No caso da nossa leitora, ela mencionou a idade de 1 ano e 10 meses. Nessa idade, ou até mais cedo, o livro deve ser mais um brinquedo, crianças pequenas não têm paciência ainda de ouvir histórias, mas podem se interessar pelas figuras e vão se interessar mais ainda se a mãe (ou o pai, ou alguém que já saiba ler) mostrar as figuras, falar sobre o que representa, imitar a voz do personagem, etc. Ou seja, a leitura é mais uma coisa divertida. Hoje em dia é fácil encontrar livros de borracha, pano, E.V.A. que são materiais adequados para os menores de 3 anos. A partir dos 3 anos os livros de capa dura já são indicados.

Dia das Crianças 2012
Reserve na rotina da criança a hora da leitura. Para os mais novos, o mais adequado é que esta hora faça parte do ritual do sono... jantar, banho, escovar os dentes, cama, hora da leitura, beijinho de boa noite e sono. Para os mais velhos, que já sabem ler, pode ser antes ou depois das tarefas de casa. Depende da rotina da casa. 

Dê livros de presente. Não só para as crianças. São meus presentes preferidos (além dos chocolates (risos)).

Dê o exemplo. Uma criança não vai ter interesse nos livros se só vê a mãe assistindo novela, o pai futebol e o irmão mais velho no vídeo-game.

Lembrando que mesmo que a criança goste muito de livros, estes não podem ser a única atividade. Crianças precisam correr, brincar, conversar e se não tiver outras crianças em casa, cabe aos adultos reservarem um tempo para as demais atividades que também são de extrema importância no desenvolvimento infantil.

Cristine Cabral

terça-feira, 30 de abril de 2013

Não subestime



No facebook frequento alguns grupos de mães. São espaços onde dúvidas, experiências, medos são compartilhados e retirei dois posts de um deles (com autorização das autoras, desde que resguardado sigilo) para falar sobre o tema de hoje: Educação Emocional.

"Tenho um cachorro de 15 anos que esta com cancer fase terminal, hoje ele piorou bastante estou dando um remedio mas a veterinaria falou em eutanasia (...) Minha filha tem 2 anos e 3 meses pode até parecer doideira mas ela é muito esperta, sente falta dele ate quando ele esta no banho ou no veterinario em consulta, quando perdemos nossa gatinha ela teve febre, acordava a noite chamando-a, até que ganhou outra gatinha, e melhorou na hora, tenho medo dela ficar ruim sabe, como posso falar com ela sobre isso? Me ajuda, minha filha não vai perguntar 1 vez por ele e depois esquecer, e mesmo eu distraindo ela volta no assunto pq com a gatinha foi assim."


"Tenho um bb de 2 ano 3 meses q não frequenta escola. Desde q engravidei virei mãe 24 horas. Meu filho é hiper,super mega grudado em mim. Resolvi q preciso trabalhar para colocar um projetos engavetados em prática, ajudar em casa, enfim melhorar de vida! Meu plano inicial é trabalhar das 16h as 3 da manhã, já q tenho "facilidade" d ficar acordada até tarde e acordar cedo. Assim tbm na parte da manhã ficaria com meu filho. Não penso em colocar ele na escola no momento. Então minha mãe ficaria com meu filho em casa das 16h as 19h (hora q meu esposo chega do serviço). Assim ele teria sempre a presença materna ou paterna por perto. Meu marido é super pai cuida bem do nosso filho. Ele q dá mamadeira, banho e coloca para dormir todos os dias. Mas a minha preocupação é: bom vou ser sincera não estou preparada para deixar meu filho essa é a real. Mas fico pensando se não for agora q tenho essa oportunidade será quando??? (...) como preparar meu filho para minha ausencia? Já conversei com ele:"M... a mamãe pode sair para trabalhar?" Ele: "não, fico triste!" Nem preciso falar q "mata" meu coração! (...) Sei q no começo vai ser um pouco complicado... mas como não ser tão desgastante para ambos? (...) To sofrendo com uma coisa q no futuro sei q será banal, mas agora esta doendo."

As duas dúvidas são bem comuns e os assuntos são bem delicados: morte e volta ao trabalho.

Minha intensão aqui não é responder e sim dar exemplos, pois as respostas dadas a estas mães foram específicas para elas e não são receita, pois cada caso é um caso. Mas resolvi tomar como exemplo. 

Precisamos antes, entendermos um pouco sobre o desenvolvimento de uma criança de 2 anos de idade.

Aos 2 anos a criança já tem grande capacidade de entendimento da comunicação oral. Excerto questões mais abstratas, ou muito fora da realidade dela. Mesmo que a criança não fale muito, ela já entende quase tudo. Vamos lembrar que por volta dos 6 meses se brinca de "Cadê o bebê?", então essa brincadeira já demonstra que é capaz de entender que o bebê é ele, que ele é capaz de se esconder, que o seu comportamento tem influência direta no comportamento dos adultos. Se com 1 ano já é capaz de organizar frases simples como "Quero água.", consegue reconhecer e nomear uma infinidade de parentes, brinquedos e personagens, consegue acompanhar e se divertir com histórias curtas, aos 2 anos é absolutamente capaz de perceber as alterações na rotina, no comportamento dos adultos. A criança percebe, mas não entende. Cabe aos adultos explicarem o que está acontecendo.

Assim não é de se admirar que a filha da 1ª mãe tenha percebido a ausência do cachorro e queira saber o que aconteceu. E quanto mais sincera for a conversa, mais a criança vai aprender para lidar com situações futuras. A morte faz parte da vida. A plantinha nasce e morre, assim como os bichinhos e as pessoas. 

No caso da 2ª mãe, o comportamento da criança provavelmente é um reflexo da insegurança da mãe com relação à volta ao trabalho. Ela mesma reconheceu quando disse: "bom vou ser sincera não estou preparada para deixar meu filho essa é a real." E este sentimento não é exclusividade dela. Todas passam por isso. Seja aos 4 ou 6 meses de idade, como a maioria, ou aos 2 anos. A dificuldade se torna maior, pois como mais tempo se passou mais difícil é mudar o comportamento. Mas difícil não quer dizer impossível. E quanto mais tempo passar, mais difícil será... para os dois, filho e mãe. Aos 5 anos por exemplo a criança pode até ser capaz de simular doenças, ou fazer chantagem emocional, fora as birras de praxe para manter a mãe por perto.

O que os dois depoimentos têm em comum, além da idade das crianças é o fato de que as mães estavam projetando os próprios sentimentos para as crianças. Imaginando que eles sentiriam exatamente o que elas estavam sentindo. E que não seriam capazes de lidar com estes sentimentos. 


Não subestime seu filho. As crianças são capazes de grandes feitos, desde que os adultos consigam dar oportunidade e suporte. Por que também não é só jogar a notícia. "O cachorro morreu e não volta mais." ou "Vou voltar a trabalhar e ponto final". É necessário que a situação seja explicada numa linguagem simples. E que os adultos estejam preparados para dar o suporte necessário, seja o luto pelo bichinho, ou a adaptação à nova rotina.

Sentimentos difíceis fazem parte da vida e quanto mais cedo aprendemos a lidar com eles mais fácil será lidar com as perdas e dificuldades futuras, provavelmente, bem maiores que estas.

Cristine Cabral

Para ler mais sobre o assunto, sugiro o post "Ouwnnn... o 'bichinho'..."


terça-feira, 16 de abril de 2013

Dedicação, supervisão, orientação, independência.


"Ele vai ser pra sempre o meu bebê."

Não gosto dessa frase e procuro não fazer o mesmo. Certa vez ouvi da mãe de um cliente que ela tinha escutado do pediatra da criança: "Este menino precisa ser promovido à idade que ele tem." Amei! Realmente isto acontece com muita frequência. Mães que não querem abrir mão de seus "bebês", mas a natureza não congela fase nenhuma. As crianças precisam ser tratadas de acordo com a idade que têm.

Faço uma ressalva neste ponto, pois existem crianças com dificuldades de desenvolvimento devido à síndromes ou deficiências, mas até estas devem ser "promovidas" de fase. Neste caso não levando em consideração a idade e sim as conquistas alcançadas.

Quando eles são recém-nascidos a dedicação da mãe para com o bebê é total. Ela praticamente deixa de ser qualquer outra coisa que não só e exclusivamente mãe. Porém com o passar dos meses já é possível ir passando da fase de dedicação para a de supervisão. Por exemplo, se o bebê já senta, a mãe já pode realizar alguma outra atividade, desde que esta possibilite uma supervisão do que a criança está fazendo. Quando chega a dar os primeiros passos, voltamos a fase da dedicação, pois com esta nova conquista as ameaças são outras.

Ou seja, a cada fase do desenvolvimento passamos por este ciclo: “Dedicação, supervisão, orientação, independência.” Atualmente estou na fase de supervisão na atividade  de tomar banho sozinha, deixo que ela passe o sabote, porém também dou a “minha geral”, as vezes ela pede para lavar os cabelos ela mesma, deixo e vou falando como deve ser. Daqui a uns meses passarei para a fase de orientação onde ficarei fora do box e ficarei apenas observando se faltou alguma coisa e para corrigir caso tenha feito algo errado. Até que ela conquiste a independência de tomar banho sozinha.

Dois aspectos são os mais comuns para mães que “atrasam” o desenvolvimento dos filhos.

  1. Leva tempo.  Muito mais rápido ela mesma dar o banho, pentear e arrumar do que esperar que a criança faça tudo no tempo dela e ainda passando por todas as tentativas e erros do processo.
  2. A mãe gosta de se dedicar aos filhos e não quer abrir mão de fazer essas coisas. Para estas a independência dos filhos soa como uma perda.
Mais de uma vez encontrei mães assim na clínica. 100% dedicadas. Tanto que quando perguntava o que elas gostam de fazer, a primeira resposta é sempre algo relacionado aos filhos e as vezes ao marido. E então refaço a pergunta salientando que quero saber dela, como pessoa, como mulher... algumas não têm resposta a esta pergunta.

Mas qual o problema de ser dedicada? Se ela gosta, se faz bem aos filhos?

A questão está nesse “bem”. Crianças que crescem sob este regime de dedicação total, podem se tornar tiranos. Adultos que pensam que a simples existência dele é suficiente para serem amados e que a outra pessoa tem o dever de cuidar deles. Pessoas que se consideram mais importante que qualquer outra. Ou podem ser adultos totalmente dependente. Adultos que não são capazes de resolver qualquer problema, pois os pais sempre estiveram alerta para evitar qualquer tipo de conflito e se mesmo assim algo acontecesse os “heróis” estavam sempre a postos para resolver o que quer que fosse.

"Nossos filhos não são nossos. Eles são filhos da vida ansiando pela vida." F. Nietzsche

Caso queira ler mais sobre o assunto, o post "Ouwnnn... o 'bichinho'..." pode ser interessante.

Cristine Cabral

terça-feira, 2 de abril de 2013

O fantasma dos pais biológicos

Mais um sobre adoção, complementando os meus dois últimos posts: "Filho do Coração" e "Contar ou não contar?"

Uma das questões mais delicadas quando o assunto é adoção é essa relação (ou ausência dela) com os pais biológicos. Muitos pais de crianças adotadas têm medo de qualquer aproximação, ou mesmo ciúmes. Realmente é uma situação imprevisível, pois cada caso é um caso. Se lidar com as emoções de uma pessoa é complicada, imagine lidar com as emoções de, no mínimo, três pessoas (mãe adotiva, mãe biológica e criança).

Mas como mãe e como psicóloga penso primeiro na criança, por ser a pessoa mais indefesa, a com menos capacidade cognitiva (pelo menos teoricamente) e emocional para lidar com uma situação delicada. 

Se os sentimentos, desejos e pensamentos dos filhos devem ser ponto de partida para análise de diversas situações, neste caso isto também se aplica.

Os sentimentos de uma criança adotada com relação aos pais biológicos podem ser das mais diversas, dependendo de como recebeu a notícia, de quem contou, de sua própria história. Pode ser que sinta:

- Raiva, ressentimento, mágoa, por ter sido abandonado.
- Agradecimento, por reconhecer que não pertencer àquela família (sendo por vontade da própria mãe ou da justiça) seria a melhor coisa para ele mesmo. Reconhecer que um lar adotivo harmonioso é melhor que qualquer lar biológico disfuncional.
- Indiferença, são pessoas estranhas como tantas outras no mundo. Apenas doadores genéticos.
- Curiosidade, do tipo: Quem são? Que fazem? Será que tenho irmãos?

Descobrir como uma criança se sente só é possível com muita aproximação, conversas sinceras, disposição por parte do adulto de perceber e aceitar o que é sentido. Para então dar sentido a tudo e planejar o que e como deve ser feito. 

Um "erro" comum a muitos pais é imaginar e conceber o que é melhor para seu filho, sem consultá-lo. Tudo bem quando a criança ainda é muito pequena e não tem conhecimento do mundo real, mas a partir do momento que a criança já entende o que significa ser adotado, deve receber uma atenção especial quanto a este assunto. 

E como vou saber se já tem condições de perceber o mundo real? Pelas perguntas. A partir das perguntas que todas as crianças fazem é que as verdades surgir.

Um dia a minha filha me perguntou: "Mamãe, por que eu sou sua filha?" Logo veio a resposta mais óbvia: "por que você saiu da minha barriga." Mas como não gosto de responder sem pensar, principalmente para ela, respondi que ela era minha filha por que a amo muito e por isso que é meu dever cuidar dela. Respondi isso, por que considero muito a possibilidade de um dia vir a adotar e queria dar a ela uma resposta que pudesse servir também para um possível irmão ou irmã. Em outras palavras, comecei a gestar um filho que pode ou não "nascer", mas se vier, meu mundo e o da "irmã" dele já está começando a ser preparado para isso. Se não considerasse a possibilidade, a resposta óbvia seria satisfatória, pois não haveria diferenças entre irmãos.

Alguém deve estar pensando, que exagero. Ela nem vai lembrar que um dia perguntou isso... 

Não. Realmente não vai. Mas a forma como ela se sentiu e o que ela pensou na hora são um alicerce para qualquer coisa que venha posteriormente e que diga respeito a este assunto (nascimento, irmãos, adoção, etc) O alicerce ninguém vê, mas é ele que dá sustentação.

Agora um detalhe importante: crianças só fazem perguntas difíceis a quem está disponível para elas. Quem tem tempo para elas. E se perceber segurança, sentir que não vai ser punido, ou punidor. Pois se ela perceber que toda vez que ela toca no assunto os adultos ficam desconfortáveis, tristes, ou com raiva provavelmente irá se fechar e tentar "resolver" tudo sozinha.

Por isso deixo a dica: se você for mãe adotiva e não sabe como lidar com esse assunto, primeiro procure ajuda para você mesma. Só depois que todos os seus conflitos pessoais estiverem resolvidos é que poderá ajudar seu filho a lidar com o assunto. 

Um filho adotivo não "pertence" à mãe biológica, nem à adotiva. Assim como qualquer criança ele pertence a ele mesmo.

"Nossos filhos não são nossos. Eles são filhos da vida ansiando pela vida." F. Nietzsche

Cristine Cabral

sexta-feira, 15 de março de 2013

Mamãe posso dormir na tua cama?


Desde que voltamos do Brasil no fim de Dezembro tem sido difícil fazer a Eduarda dormir sozinha no quarto dela. Vários motivos contribuíram para que isso acontecesse. Primeiro o frio, afinal estávamos no Brasil com 30 a 35 graus todos os dias e aqui em Portugal em pleno inverno. Apesar de ter aquecimento a sensação de cama fria não passa. Depois ela ficou doente e por comodidade e segurança ficou com a gente no quarto. Pouco tempo depois ficou doente novamente...Passado alguns dias e depois de ter conseguido fazê-la voltar a dormir no próprio quarto, agora tem sido difícil ela conseguir adormecer sozinha na cama dela. Ela pede sempre com aquela carinha linda, com aquela voz meiga e doce: - Mamãe podes ficar até eu adormecer? Nessa hora o lado materno bate e a psicologa fica de "lado". Apesar de saber que é importante que ela aprenda adormecer sozinha...

São muitos fatores que influenciam a hora de dormir. A Eduarda é uma criança muito ativa, se nós ficarmos acordados até tarde e deixar ela também fica. Rara vezes que ela adormeceu no sofá, ou sozinha antes nós por estar cansada. Ela acompanha o ritmo mesmo quando saímos para jantar fora, alguma diversão noturna ela tem o nosso pique, ou até mais!
Crio a rotina diária (importante para todos) antes dela ir para cama, como o jantar, tomar banho, escovar os dentes, ler historinha (que acabam por ser várias) e mesmo assim ela só dorme depois de muito tempo. Já aconteceu tanto comigo como com o meu marido de dormirmos primeiro que ela (risos). 

Pois é! De fato não é tão fora do comum ter uma filha com uma "síndrome de inquietação noturna", "Mãe quero água, outra história, quero aquele boneco"...e por ai vai. Afinal o ir para cama e dormir significa o fim de um dia divertido. Sendo assim é mais comum haver resistência do que se imagina.
Cada idade assinala novas descobertas e experiências, as crianças entre o um e dois anos e meio resistem ir para a cama por não quererem se separar dos pais. Do ano e meio aos três começam a preocupar-se com o que pode acontecer aos pais, surgem os medos... e dos quatro aos seis os medos ganham nomes, formatos e cores. O escuro, as sombras e os pesadelos...a imaginação ganha asas...

Então o que fazer!?! Aqui vão algumas dicas para a hora de dormir.

- Estabelecer uma hora de ir para a cama: É importante que a hora seja adequada a idade e as necessidades de sono da criança. Mostrar a ela a hora de dormir e se ela não souber identificar a hora no relógio, faça o desenho de um relógio a indica a hora estipulada para dormir. É preciso perceber o tempo da criança, algumas precisam dormir mais e outras não. Levar a criança para a cama cedo demais também pode levar a relutância.

- Criar uma rotina de fim do dia: Assim como referi acima, dar o banho, ler histórias...uma rotina relaxante, ouvir música, umas bolachas e caminha. Evitar brincadeiras turbulentas, programas assustadores....comidas e bebidas com cafeína.

- Fazer um aviso prévio: Avisar, "Daqui a dez minutos, são horas de ir para a cama". O anúncio súbito " Já são horas de ir para a cama!", é um convite a resistência! 

- Ser firme e ignorar a resistência: Essa é a parte mais difícil para os pais inclusive para mim. Depois de pô-los na cama, anunciar que vai dar o beijo e que o dia chegou ao fim em seguida sair do quarto! Preciso praticar mais vezes, pois a Duda tem resistido e pede para eu ficar. É uma questão de insistir pois antes ela ficava.

- Fazer um check-in: Caso as crianças insistam em chamar pelos pais experimente entrar em acordo com eles: se eles não chamarem passados 10 minutos você vai lá para ver se está tudo bem. Atenção! Têm que cumprir a promessa.

- Luzes noturnas: Algumas crianças gostam de alguma iluminação no quarto pois traz alguma conforto.

- Estabeleça um programa de reforços: Carimbos, adesivos no outro dia. Elogiá-los de manhã por terem ficado a noite toda na cama.

- Leve o seu filho para o quarto novamente: Se a criança sai do quarto, o melhor é pegá-la na mão e levá-la de volta para o quarto. Se a criança tiver mais de 4 anos explique que se ela voltar a fazer isso irá ter um tempo de pausa (3 minutos). Acabado o tempo leve-a novamente para a cama. Em investigações realizadas sobre o "tempo de pausa" demonstram que com a utilização consistente do tempo de pausa a maioria das crianças aprende a permanecer na cama.

E finalmente, nossos filhos precisam perceber que temos espaços conjuntos e espaços individuais, que precisam e devem ser respeitados. Por este motivo os pais não devem permitir às crianças invadir a sua privacidade. Sim, precisamos apoiar nossos filhos, estar sempre presentes em suas vidas, protegê-los, fazer com se sintam amados, mas isso não significa que devemos anular a nossa vida em função deles. Por isso a procura do equilíbrio e bem estar é o nosso lema. 


Antes de ser Psicóloga sou mãe, mas sei que preciso resistir aos pedidos da minha pequena (risos). Pela minha privacidade e pela autonomia e desenvolvimento saudável dela..dentre outros...

Então, quem resiste ao, "Mamãe posso dormir na tua cama?". 

Saudações de terras lusas...primavera quase chegando!

 Bom fim-de-semana!

Taciana Ferreira